domingo, 25 de março de 2007

O conceito de Tradição em Antônio Sardinha


Henrique Barrilaro Ruas

Henrique José Barrilaro Fernandes Ruas (Figueira da Foz, 2 de Março de 1921- Parede, 14 de Julho de 2003). Professor, historiador, ensaísta e Político. Formou-se em História e Filosofia pela Universidade de Coimbra (1945) tendo freqüentado em Paris, com bolsa do Estado Francês (1947-49), a École des Chartes e o Institut Catholique. Foi Presidente do Centro Acadêmico de Democracia Cristã (Coimbra, 1942-43) e sócio - fundador do Centro Nacional de Cultura (Lisboa, 1945) de que foi diretor em 1955.

A 1ª edição deste livro ("Ao Ritmo da Ampulheta") saiu em 1925. Era a primeira obra póstuma de Antônio Sardinha, falecido aos 10 de Janeiro desse mesmo ano, com 37 anos de idade.
Os que, como eu, não conheceram Sardinha, têm de imaginar, através dos seus escritos e com o apoio de testemunhos numerosos, o que foi o fascínio daquela personalidade sem par, que em dois ou três momentos de uma vida cortada no limiar da maturidade chegou a ser o mais influente dos doutrinadores portugueses e uma das primeiras figuras da vida política nacional. Fundador do Integralismo Lusitano praticamente à saída da Faculdade de Direito de Coimbra, membro da Junta Central do grande movimento tradicionalista e mais tarde seu presidente; diretor de uma revista cultural política de intenso prestígio e do único diário que erguia no pântano uma voz revolucionária; poeta de lirismo profundo e de sopro épico potente; estilista vigoroso e ao mesmo tempo barroco, aberto às transformações queirozianas e de Fialho mas sobretudo ele próprio, na pujança de um espírito criador e insubmisso; alma inquieta na demanda de Deus e por isso apostólica e mística; historiador das "lacunas e surpresas" da nossa História, com um respeito pelo documento que nenhum ardor polémico subverte; conferencista que arrebata os mais exigentes auditórios, – Antônio Sardinha é, mais que tudo isso, o homem que melhor simbolizou, em doze anos de ação generosa, o português integral. E apesar de todas as divergências, homens como Fidelino de Figueiredo e Antônio Sérgio reconheceram-lhe a grandeza.Morto à saída da juventude, o seu nome havia de ser utilizado por muita alma baça, incapaz de se irmanar com ele em caridade pátria e em paixão da justiça. A sua obra procurou-se sepultá-la em ondas de lugares-comuns. E as linhas-mestras do seu pensamento, em que a realeza revigora e unifica as instituições tradicionais e a dignidade das pessoas e a Nação é pensada como a mais humana das comunidades, aberta ao único verdadeiro universalismo, o cristão, passaram a ser olhadas como receitas de cozinha.É ainda tempo de reler e repensar essas dezenas de obras, a que não falta nenhum dos elementos essenciais da portugalidade e em que o homem moderno encontra espaço aberto pelo amor das liberdades e pela audácia transformadora.Dedicado "À memória do Doutor Manuel Ferreira Deusdado, amigo e mestre querido que em Portugal foi o primeiro a encontrar pelos caminhos perdidos da inteligência a dupla verdade católica e monárquica da nossa raça", "Ao Ritmo da Ampulheta", já preparado para a edição quando o autor morreu, traz assim o testemunho de uma continuidade de pensamento que é um dos caracteres essenciais do integralismo. Ferreira Deusdado – agora parcialmente reeditado no excelente volume de Pinharanda Gomes "A Filosofia Tomista em Portugal" – é um daqueles mestres que os integralistas aceitaram com humildade, porque lhes traziam notícia clara dos valores de uma tradição violentamente interrompida. E não se deve esquecer o generoso cuidado com que Sardinha procurou recolher o magistério de alguns pensadores e historiadores bem distantes das suas conclusões e convicções, sem faltar o próprio Teófilo Braga.Neste mesmo volume, o ensaio "A Dor de Antero" manifesta esse esforço construtivo e sintético; bem próprio de quem defendia o célebre princípio: "tudo o que é nacional é nosso". "Quando na história crítica das idéias portuguesas se procurarem as raízes filosóficas do movimento integralista, Antero de Quental há-de aparecer, sem surpresa para as pessoas cultas, como um dos nossos precursores mais próximos e diretos." – escreve Antônio Sardinha. Porquê Antero? Em primeiro lugar, porque ele foi discípulo de Proudhon e de Lassalle, e por isso mesmo se não filia na Revolução Francesa. Depois, porque Antero foi talvez – inclina-se Sardinha a admitir – o inspirador remoto da "política de poder pessoal" que El-Rei D. Carlos escolheu. Mas é sobretudo nos traços mais enérgicos da mentalidade anteriana – "inteligência sedenta de certezas", "pensador encantado pelo gosto da Ação" e "precursor das modernas filosofias da intuição", no fim de contas "libertado do lívio sonho nirvanesco que lhe embacia a memória"; "crítico das ilusões da inteligência" – que Antônio Sardinha encontra as mais fundas razões de mestrado intelectual para a sua geração integralista. Neste sentido, conclui o nosso mestre: "Antero é um precursor da inquietação contemporânea, adivinhando, preconizando mesmo, a aliança do pensamento com a ação".Outro grande nome das Letras portuguesas, soldado da bandeira liberal, é também para Sardinha precursor do integralismo. O lugar ímpar de Garrett no santuário integralista aparece também explicado neste volume. O ensaio "A Herança de Garrett" logo de início tira quaisquer dúvidas: "Garrett assinalara no Romanceiro a necessidade de uma larga acção governativa baseada nas preferências tradicionais da nacionalidade. (…) Tais são os fundamentos do seu tradicionalismo, que é também o de Herculano (…)".Assim, Antônio Sardinha não hesita em subscrever as teses essenciais do Romantismo português. Bem ao invés de Maurras, que em França defendia desde os últimos anos do século XIX o prestígio austero da Renascença, soprado desde as alturas da Acrópole, Sardinha escreve, decidido: "No seu regresso às velhas instituições concelhias e à hereditariedade emotiva da raça, o nosso Romantismo, através da figura de Garrett e de Herculano não é, de modo nenhum, a desorganização do sentimento, que – na frase incisiva de Pierre Lasserre – classifica e define o romantismo francês". Por isso o grande pensador português declarava, algures, preferir, de longe, Charles Péguy a Charles Maurras. Não imaginemos, no entanto, Antônio Sardinha arrastado pelas emoções doentias da era romântica, morto de amores pelas névoas e as ruínas…O seu estudo sobre Garrett, parecido com o que dedica a Afonso Lopes Vieira (no capítulo "Nacionalismo Literário"), não é nem por sombras um vago remoer de sonhos "românticos", uma renúncia às fortes disciplinas da inteligência ou às regras inteiras da investigação histórica. Com o louvor de Garrett vem enleado o louvor de Martins Sarmento e Estácio da Veiga, Santos Rocha e Ricardo Severo, Vieira Natividade e António Tomás Pires, "arqueólogos e folcloristas" que prepararam "o barro que há-de cimentar amanhã, nos caboucos antigos da nação, os alicerces dum novo Portugal". Nada fica de fora desses "caboucos": "Mesteirais elevando um aqueduto, gente de guerra sofrendo assédios ásperos"… E o doutrinador conclui: "Nosso mestre e nosso precursor, Garrett ordena-nos que cumpramos o seu testamento. Cumpri-lo é restituir-nos à posse de nós mesmos".Esta ideia, este destino de testamenteiros, volta, aqui ou além, na obra de Sardinha. Mais ou menos expressa, refere-se a Manuel Ferreira Deusdado, a Garrett, a Herculano, a Gama e Castro, a Ribeiro Saraiva, a Antero de Quental, a José Acúrsio das Neves, ao Eça do Fradique Mendes – e, sobre todos, a Oliveira Martins, de quem julgou o integralismo "o Partido póstumo". Porquê, entre todos, Oliveira Martins? Diremos: porque, de todos os precursores do integralismo, é ele quem melhor representa o que há de positivo em todas as escolas. Ser discípulo de Oliveira Martins significa pertencer ao menos partidário dos partidos, ao mesmo tempo que representava trazer no programa a mais moderna, a mais actualizada das doutrinas.Porque – não o esqueçamos nunca! - António Sardinha foi tudo menos um conservador. O seu conceito de tradição, tantas vezes repetido mas tantas vezes confundido, nada tem que ver com a paragem no tempo ou com o interesse mesquinho de guardar o talento debaixo do colchão. "(…) a tradição - escreve Sardinha no ensaio "No Jardim da Raça", dedicado a Luís de Almeida Braga - não é um ponto imóvel no passado. É antes uma continuidade interminável, renovando-se sempre. Reveste-se, deste modo, de um sentido de atualidade para nós, que a vivemos e a experimentamos como coisa nossa, feita da nossa substância quotidiana".Seria preciso um livro inteiro – e não apenas um jornal, para estudar as múltiplas facetas deste volume. Antônio Sardinha espera ainda o estudioso que se agigante a pontos de ombrear com ele, analisando-lhe a obra imensa, dezenas de volumes em que é possível encontrar notícia ou reflexo de toda a sua geração e das gerações anteriores à sua, desde a de 70. O político que queima os seus dias na ação (que vai até subir a encosta de Monsanto) não cala o homem de letras, nem o místico.
Quem escreve estas linhas, simples notícia ou recensão imediata, gostaria de recordar que foi "Ao Ritmo da Ampulheta" o primeiro livro de Sardinha que lhe aconteceu ler, aí por 1939, na hora em que os acontecimentos da história viva lhe faziam compreender agudamente tudo o que há de intemporal na mensagem do Integralismo Lusitano. Para além, certamente, da afogueada polêmica das formas frustes da Democracia…

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Fernando Rodrigues Batista

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot