terça-feira, 19 de agosto de 2008

Satan dans la Cité

O presente texto é um comentário feito pelo saudoso filósofo Heraldo Barbuy sobre a magnífica obra de Marcel de La Bigne Villeneuve "Satan dans la Cité", que não obstante ter sido escrita em 1951, as teses levantadas pelo autor francês constitui perfeito prognostico tanto da vida política quanto da situação atual da Igreja.


As teses defendidas por Marcel de la Bigne Villeneuve em seu livro sobre a Estatologia e em seu Tratado Geral do Estado são aqui retomadas sob um aspecto inteiramente novo, qual seja o das relações entre a situação do mundo contemporâneo e o diabolismo político social. Livro mais popular do que os anteriores do mesmo autor e onde sua filosofia política vem exposta de maneira mais atraente sob forma de diálogo entre um teólogo e um sociólogo. A obra destruidora de Satanás no mundo é o tema central do livro. E Satanás não é uma alegoria, nem uma figura literária, mas um ser concreto cuja atuação neste mundo, de que é o Príncipe, se evidência em todos os tempos sob a forma da possessão, que se distingue rigorosamente da doença nervosa. A rarefação dos casos de possessão, longe de indicar que o progresso das ciências expulsou Satanás do mundo, mostra ao contrário um aperfeiçoamento dos métodos satânicos: a inabitação física é cada vez menos útil ao inimigo do gênero humano, que infecta antes as instituições políticas e governamentais, num movimento simulado, mais irresistível, em que centenas de milhares e de milhões são levados à perdição. Satanás utiliza para seus fins o gregarismo moderno usando um método à altura do famoso progresso das ciências, pelo qual se pretendia decretar a sua desaparição. O reino das massas é o reino de Satanás, no que representa de miséria, de injustiça, de descrença, de fanatismo, de guerra, de desordem. Satã, em hebreu SHATAN, que significa o adversário, o que é contra, diabo, de d’aballô o que se põe de través, implantou no mundo, depois da Revolução Francesa, que é obra sua, o signo da destruição e da morte, da perdição e do erro. As tremendas maquinações atribuídas a misteriosas entidades terrenas, devem ser referidas ao Príncipe das Trevas e aquelas entidades, quando reais, são os seus instrumentos. A "Soberania do povo" no estilo da Revolução Francesa em que o povo é governado, o povo governa, do povo vem a autoridade, mas a autoridade recai sobre o povo; o reino do laicismo, a contra-igreja, que expulsa do mundo Deus, cujas leis são postergadas em nome de um direito formal, que é uma suma de mentiras e utopias, tal o reino de Satanás. A negação do Pecado Original, pela revolução que iniciou a infectação da sociedade moderna. A luta contra as instituições religiosas, a ditadura satânica do número, o liberalismo, o aniquilamento de toda moral transcendente. Tal o reino de Satanás; tal a sociedade atual. Satanás, o Príncipe da Mentira, afeiçoou à sua semelhança um mundo feito só de mentira. Nada mais impressionante do que a descrição do reino da mentira, feita pelo teólogo:

"A duplicidade é universal; ela nos cega, nos sufoca, nos desgarra, nos apodrece e dissolve todos os nossos pontos de apoio. Nossa época e nosso espírito, estão de tal modo grangrenados de mentira que contaminam até as instituições e os homens que desejariam ficar indenes e os leva a recorrer, na falta de melhor, à mentira para lutar contra a mentira. Mentira na filosofia política que pretende subrepticiamente substituir o espírito pela matéria, a qualidade pela quantidade, o Criador pela criatura, a razão por uma cega aritmética. Mentira da linguagem política e especialmente do calão parlamentar, tornado anfibológico e quase hermético e do qual nenhuma só palavra, notava Péguy, conservou sua significação natural. Mentira nas instituições políticas construídas en porte à faux sobre fundamentos instáveis e ruinosos. Mentira em particular na Soberania do Povo, que desfigura a autoridade, de que faz uma escrava e o comando de que faz um despojo. Mentira na justiça que se torna a serva dócil da iniquidade triunfante, sem se preocupar nem mesmo com a evidência, prostituindo-se aos poderosos do dia e pretendendo impassivelmente converter a culpabilidade em inocência, a inocência em culpabilidade. Mentira na polícia que perverte a moralidade pública, que tem a missão de defender. Mentira na repressão e na vingança que se escondem sob a máscara da legalidade e na sombra dos cárceres. Mentira na interpretação do Bem Comum e do Interesse Geral, que já não são invocados senão para servir interesses de partidos, ou que se reduz a uma concepção sórdida, baixamente utilitária, que se confunde voluntariamente com o bem estar, as comodidades materiais e as satisfações dadas aos instintos gozadores das multidões. Mentira da lei, que já não é a ordem racional, imposta pelo bem de todos, mas a simples expressão, disfarçada em direito formal, da vontade do mais forte e entregue assim a uma perpétua instabilidade, a uma permanente injustiça. Mentira na liberdade, onde já não se quer ver o que ela é, isto é, uma lenta e penosa conquista e a faculdade sublime de ser causa, mas um dom gratuito e congenital e que se transforma em tributária do mal, em dissolvente da autoridade, em negação da responsabilidade. Mentira na Igualdade, em nome da qual se tende estupidamente dar a todos os homens, direitos, estatutos e satisfações uniformes. Mentira na Fraternidade, que se orgulha de tornar inútil a Caridade e nada mais faz do que renovar incessantemente o drama de Caim e Abel. Mentira na Moral, privada de sua base e de seu fim e tornada puramente fictícia. Mentira no hino universal entoado à apoteose da Pessoa Humana, cuja dignidade nunca foi tão desconhecida. Mentira na educação, que não passa d’um entulho, sem nenhuma ação formadora e deixa portanto de merecer o nome que se lhe atribui. Mentira no crédito que o Estado confunde abertamente com a espoliação e o roubo. Mentira na moeda, cujo valor real está num desequilíbrio cada vez mais completo com o valor aparente e tende irresistivelmente para o zero. Mentira, direi eu, até nas orações que certos políticos, que se pretendem religiosos, dirigem publicamente aos Céus pela salvação de um Estado que é a negação e a violação dos direitos divinos, pois, segundo a grande palavra de Bossuet, Deus se ri das suplicas que se elevam até Ele para desviar as desgraças publicas, quando não nos opomos ao que se faz para pára atraí-las.
Mentira, para coroar o todo, no comportamento dos melhores que julgam, sob o pretexto de evitar um mal maior, dever pactuar com o falso, arvorar opiniões que não são as duas e dizer-se o que não são. Mentira, sim! Até na verdade, à qual se incorpora sistematicamente uma parte de erro, mentira no erro o qual se incorpora sistematicamente um parte de verdade, alienando assim o espírito dos homens, de tal modo que aos olhos de grande número elas se tornam praticamente indiscerníveis, intercambiáveis. Perversão e confusão, tornadas tais que, mais cínico do que Pôncio Pilatos, um parlamentar francês, sem suscitar reprovação alguma, pode proclamar: ‘Mais vale unir-se ao erro do que dividir-se na verdade’."

Tal reino satânico, onde o Príncipe do Mal substitui o dogma da Imaculada Conceição pelo mito da 'imaculada conceição' do homem, com o seu progresso indefinido, com a sua inocência original, com a sua soberania coletiva, com as instituições em suma da contra-Igreja. A contra-Igreja, tem também, com a Igreja, o seu Credo, mas um credo de mitos, de erros e de mentiras. A Igreja de Cristo abre o caminho do reino celeste; a contra-Igreja pretende abrí-lo para um suposto paraíso terrestre. Como a Igreja de Cristo é a Igreja de Deus, a contra-Igreja é a Igreja do Diabo, que tem o seu grande fetiche nas abstrações do 'Povo' deificado, hipostasiado pelas teorias revolucionárias, convertido num ídolo, no objeto duma demolatria... O credo da contra-Igreja é a famosa declaração dos 'direitos', onde os direitos verdadeiros e vivos são eliminados, pelos utópicos e abstratos. A contra-Igreja tem também a sua teologia, com 'doutores' e 'pontífices', com seus 'missionários', com sua magia que pretende operar a 'transubstanciação das ignorâncias', numa 'vontade geral', 'reta, inalterável e pura'. A contra-Igreja tem até os seus sacristãos e seus bedeis, seus objetos sagrados, figurados pelas urnas eleitorais e pelo fetiche do 'grande número'. O grande número é o número da besta do Apocalypse, o número 666: segundo Alberto o Grande e o Venerável Beda este é número da criação puramente material, o número da quantidade pura. A ditadura da quantidade, com suas sete cabeças e seus dez cornos que trazem o nome da blasfêmia.
Satan dans la Cité constitui uma das mais terríveis críticas endereçadas à sociedade contemporânea e em particular à francesa. Fazendo constantes referências a obras demonológicas, tais como a de Simone Weil Connaissance surnturelle e o volume de Études carmélitaines sobre a ação satânica; apoiando-se em Encíclicas e na sua habitual erudição, Marcel de la Bigne Villeneuve consegue demonstrar que existe uma inteligência diabólica, nas maquinações, pacientemente urdidas, que têm conduzido o mundo ocidental à descristianização, o erro, à fraude, à heresia e que podem conduzi-lo a morte. As nações não são imortais como os indivíduos que podem purgar nesta ou na outra vida seus erros e seus crimes. As nações resgatam neste mundo mesmo os seus atentados; e a força do demônio sobre os homens e nações é tanto maior, quanto maior é a extensão dos seus pecados. Villeneuve mostra a obra do mal progredindo pela alão de dois tipos de filhos de Satanás: os "filhos legítimos" de Satanás que reivindicam abertamente sua origem e adotam sem reticências o programa da Contra Igreja. E os "filhos bastardos" de Satanás que pretendendo permanecer no seio da Igreja procuram conciliar Deus e o Diabo, a revolta e a Verdade e que parecem ficar na Igreja para melhor facilitar a entrada de Satanás. Os filhos bastardos de Satanás são os católicos transigentes, que desejariam unir os contrários, estabelecendo um sistema de vergonhosas concessões, em que, cada uma das partes cedem um pouco, em benefício duma suposta harmonia entre a virtude e o crime.
Uma observação importante poderia ser feita sobre este livro: Villeneuve nos mostra aqui todo o satanismo da política liberal, que erige em face da Igreja uma Contra-Igreja.
Mas o liberalismo político-econômico já não vigora e sim a sua consequência direta, que uma invasão cada vez mais insuportável do Estado em todas as esferas de atividade individual. O liberalismo, como obra de Satanás foi simples meio para chegar a um fim bem mais infernal, que é a centralização de todas as instituições, e de todos os poderes em Estado hipertrofiados e finalmente num Super-Estado Internacional, cuja infectação por Satã é a perdição de milhões de almas pela obra de um único poder maléfico. A ignorância mais infernal da nossa época é a ignorância dos princípios do direito natural e a sua substituição por esse direito positivo, em cujo corpo de leis cada vez mais numerosas transgridem a ordem divina do mundo. Já não é mais tempo de clamar contra a excessiva liberdade do indivíduo em face do Estado. Agora é tempo de clamar contra a excessiva liberdade do Estado em face do indivíduo; de tal sorte que a maior luta de nossa época é a luta pela preservação dos direitos da pessoa humana. Mas este não é um reparo e sim uma explicação feita à poderosa obra de Marcel de la Bigne Villeneuve, cuja leitura é extremamente recomendáveis a todos os políticos e com tanto mais razão a todos os católicos. Todas as formas de socialismo são formas de satanismo. E a doutrina da Igreja, tão bem defendida no Tratado Geral do Estado de Villeneuve, não é um meio termo entre capitalismo e comunismo e suma uma doutrina própria, original e autêntica, inteiramente distanciada do capitalismo e do comunismo.

Maritanismo Resistente

Carlos Nougué
Antes de prosseguir com o tema do pecado original (essencial para o entendimento correto do estado atual do homem e de sua ordenação segundo a economia da salvação), é preciso tratar, ainda que muito brevemente, do maritainismo, essa espécie de enfermidade que atingiu o tomismo e cujas seqüelas resistem a desaparecer. Expoente do movimento neotomista, o francês Jacques Maritain introduziu profunda e daninhamente no pensamento católico concepções de pessoa humana e de natureza totalmente equivocadas. Até um pensador como Gustavo Corção só no fim da vida, mais precisamente após o belo Dois Amores, Duas Cidades, atinou para os malefícios causados pelo maritainismo, e mesmo assim, como muitos tomistas, ainda acreditava num Maritain duplo: um tomista perfeitamente ortodoxo, e um tomista desvirtuado, como numa espécie de esquizofrenia intelectual. Isto é verdadeiro, mas só em parte, porque como demonstrou cabalmente o Pe. Julio Meinvielle (em De Lamennais a Maritain e Crítica a la concepción de Maritain sobre la persona humana) as referidas concepções já estavam presentes desde o início na obra de Maritain, ao menos em germe. Já estão plenamente desenvolvidas em Três Reformadores, embora ainda não causem todos os seus efeitos, como farão, mais tarde, em obras como Humanismo Integral. É bem verdade que de tais concepções partilhou o grande Pe. Garrigou-Lagrange, o qual, porém, logo renunciou a elas, enquanto Maritain as elevaria à máxima potência.
Resumamo-las aqui (já que logo as retomaremos bem mais extensamente): enquanto indivíduo, ou seja, enquanto membro de uma espécie, o homem está sujeito ao Estado e à Igreja, mas, enquanto pessoa, tem relação direta com Deus e sua intimidade (o que decorre, como veremos em outro artigo, de conferir ao homem atributos semi-angélicos). Ora, o corolário disso é preciso: reduzir a um mínimo a importância e o papel do Estado e da Igreja, e elevar a um máximo a liberdade de consciência individual, cuja santidade já não requererá, necessariamente, os meios que, todavia, como sempre disse o Magistério, só a Igreja (por instituição divina) pode ministrar em ordem à salvação de cada homem e ao fim último da multidão (“o fim da multidão não pode ser senão o mesmo fim de cada indivíduo que a compõe”, dizia Santo Tomás). Na verdade, tal visão não se distingue, fundamentalmente, das teses de um Marc Sangnier senão pelo fato de se reivindicar do tomismo, ainda que ao preço das maiores piruetas lógicas (Maritain era de fato um grande lógico, mas, como nem tudo o que é lógico é verdadeiro...). Com efeito, ela tem muito não só de liberal, como de comunista...
Mas importa dizer aqui que de tal visão decorre um entendimento completamente equivocado das artes e ciências. Sim, porque, se como natureza pessoal (quase angélica, como disse) o homem está em relação direta com Aquele que é propriamente a Supernatura e autor de todas as naturezas, então todas as nossas artes e ciências já estariam preordenadas a Deus pelo mero fato de ser humanamente naturais. Logo, uma obra de arte pode ser considerada boa e ordenada a Deus pelo simples fato de o artista tê-la feita segundo regras perfeitamente naturais. Como o tentará demonstrar erudita e “tomisticamente” Maritain em Art et Scolastique, mesmo poemas como Les fleurs du mal, de Baudelaire, seriam obras de arte boas, tendentes naturalmente a Deus e de seu agrado, pelo simples fato de serem “artisticamente” bem-feitas, e independentemente de se ordenarem, em verdade, a Satã... Absolutamente falso.
Nada pode deixar de ordenar-se a Deus não enquanto é humanamente natural, mas enquanto tem de tender a Ele ou intencional e formalmente, ou pelo menos de modo não-contraditório – sempre como meio, como fim intermediário ordenado, mais ou menos diretamente, à Causa Final. Tudo isso, estou certo, se provará exaustivamente ao longo das séries escritas para este blog e nos demais trabalhos que tantas vezes já anunciei. Mas, por ora, fiquemos com uma voz da verdadeira autoridade: Pio XII. Lembremo-nos do artigo “Querem um esporte reto e honrado? Cumpram os mandamentos”: nele se viu o Papa exigir do próprio esporte, tão inferior à mesma arte, que se transformasse numa “quase ascese de virtudes humanas e cristãs” e se ordenasse, indubitavelmente, ao fim último do homem, a Deus: o esporte, assim como [atenção!] “toda e qualquer forma de atividade humana”, deve “aproximar o homem de Deus”. “Deve-se rejeitar, pelo contrário”, dizia ainda o Papa, “tudo quanto não conduz a tais fins [ou seja, o último e os intermediários], ou se afasta deles, ou sai do lugar que lhes é [devidamente] atribuído [na justa hierarquia dos fins]” (Esporte e Ginástica), exatamente, aliás, como no caso da música e da arte em geral.
Em tempo 1: Vejam o que, tão contrariamente a Maritain, diz o Pe. Meinvielle: “a produção econômica ordena-se ao consumo; o consumo ordena-se à vida material do homem; a sua vida material, à sua vida espiritual; e esta, a Deus. Todas as coisas devem ser à medida do homem, e o homem [inteiro, acrescento] à medida de Deus” (em Concepción católica de la economia, 1936). É esta a base para tudo quanto venhamos a escrever aqui e alhures.
Em tempo 2: Há algo que temos repetido insistentemente: a obra de arte que, embora conservando aspectos belos, não se ordene de algum modo ao fim último do homem é não só má em termos finalísticos, mas tem obrigatoriamente mescla de mais ou menos fealdade. Já veremos por quê.Em tempo 3: E terminemos, por hoje, com estas santas palavras: “Os prazeres do ouvido me haviam enredado e subjugado com particular tenacidade, mas Vós me desembaraçastes e livrastes” (Santo Agostinho, Confissões, X 33, 49).

Sobre a Necessidade de uma Fé mais Profunda

Reg. Garrigou-Lagrange, O.P.


Deve-se, desde o início, falar da necessidade de uma fé mais profunda, por causa dos perigos provindos de erros gravíssimos, atualmente espalhados pelo mundo, e por causa da insuficiência dos remédios a que freqüentemente recorremos contra eles.

Os perniciosos erros que se espalham pelo mundo, tendem à descristianização completa dos povos. Ora, isto começa com a renovação do paganismo no século XVI, ou seja, com a renovação da soberba e da sensualidade pagã entre cristãos. Este declínio avançou com o protestantismo, por sua negação do Sacrifício da Missa, do valor da absolvição sacramental e, por conseqüência, da confissão; por sua negação da infalibilidade da Igreja, da Tradição ou Magistério, e da necessidade de se observar os preceitos para a salvação. Em seguida, a Revolução francesa lutou manifestamente para a descristianização da sociedade, conforme os princípios do Deísmo e do naturalismo — isto é: se Deus existe, não cuida das pessoas individuais, mas somente das leis universais. O pecado, por estes princípios, não é uma ofensa à Deus, mas apenas um ato contra a razão, que sempre evolui; assim, considerava-se o furto como pecado enquanto se admitia o direito à propriedade individual; porém, se a propriedade individual é, como dizem os comunistas, contrário ao que se deve à comunidade, nesse caso, é a própria propriedade individual que é furto.

Em seguida, o espírito da revolução conduziu ao liberalismo que, por sua vez, queria permanecer numa meia altitude entre a doutrina da Igreja e os erros modernos. Ora, o liberalismo nada concluía; não afirmava, nem negava, sempre distinguia, e sempre prolongava as discussões, pois não podia resolver as questões que surgiam do abandono dos princípios do cristianismo. Assim, o liberalismo não era suficiente para agir, e após ele veio o radicalismo mais oposto aos princípios da Igreja, sob a capa de “anticlericalismo”, para não dizer anticristianismo. Assim, os maçons. O radicalismo, então, conduziu ao socialismo e o socialismo, ao comunismo materialista e ateu, como agora na Rússia, e quis invadir a Espanha e outras nações negando a religião, a propriedade privada, a família, a pátria, e reduzindo toda a vida humana à vida econômica como se só o corpo existisse, como se a religião, as ciências, as artes, o direito fossem invenções daqueles que querem oprimir os outros e possuir toda propriedade privada.

Contra todas essas negações do comunismo materialista, só a Igreja, somente o verdadeiro Cristianismo ou Catolicismo pode resistir eficazmente, pois só ele contém a Verdade sem erro.

Portanto, o nacionalismo não pode resistir eficazmente ao comunismo. Nem, no campo religioso, o protestantismo, como na Alemanha e na Inglaterra, pois contém graves erros, e o erro mata as sociedades que nele se fundam, assim como a doença grave destrói o organismo; o protestantismo é como a tuberculose ou como o câncer, é uma necrose por sua negação da Missa, da confissão, da infalibilidade da Igreja, da necessidade de observar os preceitos.

O que, pois, se segue dos erros citados no que diz respeito à legislação dos povos? Esta legislação torna-se paulatinamente atéia. Não somente desconsidera a existência de Deus e a lei divina revelada, tanto positiva como natural, mas formula várias leis contrárias à lei divina revelada, por exemplo, a lei do divórcio e a lei da escola laica, que termina por tornar-se atéia, nos três graus: escolas primárias, liceus ou ginásios e universidades, nas quais freqüentemente reduz-se a religião à história mais ou menos racionalista das religiões, na qual o cristianismo somente aparece como no modernismo, como uma forma agora mais alta da evolução de um senso religioso que sempre muda, de modo que nenhum dogma seria imutável nem imutáveis os preceitos; por fim, vem a liberdade total de cultos ou religiões, e da própria impiedade ou irreligião. Ora, as repercussões destas leis em toda sociedade são enormes; tome, por exemplo, a repercussão da lei do divórcio: qualquer que seja o ano, qualquer que seja a nação, milhares de famílias são destruídas pelo divórcio e deixam sem educação, sem direção, crianças que terminam por se tornar ou incapazes, ou exaltadas, ou más, por vezes, péssimas. Do mesmo modo, saem da escola atéia, todos os anos, muitos homens ou cidadãos sem nenhum princípio religioso. E portanto, em lugar da fé, da esperança e da caridade cristã, têm eles a razão desordenada, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, o desejo de riqueza e a soberba de vida. Todas essas coisas são erigidas em um sistema especial materialista, sob o nome de ética laica ou independente, sem obrigação e sanção, na qual às vezes remanesce algum vestígio do decálogo, mas um vestígio sempre mutável. Se, porém, os efeitos dolorosíssimos destes erros perniciosos ainda não aparecem claramente na primeira geração, na terceira, quarta e quinta se manifestam segundo a lei da aceleração na queda. — É como na aceleração da queda dos corpos: se numa 1a. etapa da descida, a velocidade é como que 20, numa 5ª será como que 100. E isto se contrapõe ao progresso da caridade, que, segundo a parábola do semeador, é por vezes 30, 50, 100 para um.

É a verdadeira descristianização ou apostasia das nações. E isto foi exposto justamente na longa epístola do grande católico espanhol Donoso Cortes escrita ao Cardeal Fornari para que a apresentasse à Pio IX; o título dela é: Sobre o princípio generativo dos graves erros hodiernos (trinta páginas) e Discurso sobre o estado atual da Europa (1830). Cf. Opera do mesmo autor 5 vol. Madrid 1856: trad. Fr, 1862, t. II, p 221, ss; t. I, p 399; trad. It. 1861. Em seguida, a mesma série de erros foi exposta no Silabo de Pio IX, 1861 (Dz. 1701).

O princípio destes erros é: Se Deus existe, não cuida das pessoas individuais, mas somente, das leis universais. Daí o pecado não ser uma ofensa contra Deus, mas somente contra a razão, que sempre evolui. Disto segue que não existiu o pecado original, nem a Encarnação Redentora, nem a graça regenerativa, nem os sacramentos que causam a graça, nem o sacrifício e, por isso, não é útil o sacerdócio, nem é útil a oração.

No fundo, o Deísmo não parece verdadeiro, pois se os homens individualmente não precisam de Deus, porque se admitiria que Deus existe no céu? É preferível admitir que Deus se faz na humanidade, que é a tendência mesma ao progresso, à felicidade de todos, sobre a qual falam o socialismo e o comunismo.

Portanto, qual é, segundo este princípio, o modo de discernir o falso do verdadeiro? O único modo é a livre discussão, no parlamento ou em algum outro lugar, e esta liberdade é, portanto, absoluta, nada pode ser subtraído à sua jurisdição, nem a questão do divórcio, nem a necessidade da propriedade individual, nem a da família ou da religião para os povos.

Assim, a discussão fica libérrima, como se não existisse a Revelação divina; se se objeta, por exemplo, que o divórcio é proibido no Evangelho, isto pouco importa.

Destas coisas nascem, como é patente, grandes perturbações, inúmeros abortos, crimes, e não se encontra remédio, senão o de aumentar cada vez mais a polícia ou o exército.

Mas, a polícia obedece àqueles que estão no poder e não raro, depois destes, vêm seus adversários e ordenam o contrário. De outra parte, tendo-se suprimido a propriedade privada, suprime-se, de modo geral, o patriotismo, que é como a alma do exército.

Donde estes remédios não serem suficientes para conservar a ordem e evitar as graves e intermináveis perturbações, pois não mais se admite a lei divina, e nem a lei natural escrita por Deus em nossos corações (E tudo isso é uma demonstração per absurdum da existência de Deus.)

Neste caso, é para se concluir com Donoso Cortes que estas sociedades, fundadas sobre princípios falsos ou sobre uma legislação atéia, tendem para a morte. Nelas, com o auxílio da graça, as pessoas individuais podem ainda se salvar, mas estas sociedades, como tais, tendem para a morte, pois o erro, sobre o qual se fundam, mata, como a tuberculose ou o câncer que, progressiva e infalivelmente, destrói nosso organismo. — Só a fé cristã e católica pode resistir a estes erros, e tornar a cristianizar a sociedade, mas, para isso, requer-se uma condição, uma fé mais profunda, conforme a Escritura: « Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé. » (1 Jo 5, 4).

(De Sanctificatione Sacerdotum, intro., tradução: PERMANÊNCIA)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Plutocracia

ALFREDO PIMENTA [Guimarães, 1882 - Lisboa, 1950] Polígrafo da primeira metade do século XX (o seu primeiro livro data de 1904 e os seus últimos escritos são do ano da sua morte), versou variados gêneros, desde a poesia à política, da filosofia à história, do ensaio à critica literária, filosófica, histórica, deixando vastíssima bibliografia numa escrita primorosa de clareza e rigor.
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra (1908), continuou ao longo da vida a sua formação intelectual, iniciada já antes do freqüentar a Universidade. A sua vasta biblioteca, doada em 1970 pelos filhos à Fundação Calouste Gulbenkian, constitui a prova material desta intensa atividade intelectual.

«... A Democracia é o regime próprio do século XIX — o século das mistificações.» «... Para não alongar mais a lista — o século XIX foi o século da Democracia, o século do Voto omnipotente e omnisciente, o século da Urna Sagrada e Virtuosa, o século do Sufrágio Universal Soberano — em boa linguagem portuguesa, o século do «carneiro com batatas».Que era a Democracia? A Democracia era o Governo do povo pelo povo, era a felicidade do povo, era o Pô-ô-vo! Era, na cabeça dos imbecis que lhe proclamavam a excelência. Mas na realidade pura, na realidade inegável, indiscutível, a Democracia foi tão somente o Governo dos Ricos, o domínio do Dinheiro. No antigo regime, valia a Nobreza, valia a Inteligência, valia a Coragem, valia o Serviço, valia o Sacrifício. O Dinheiro só por si não valia.O Dinheiro só por si não forçava os Paços dos Reis, nem as Secretarias do Estado. Foi a Revolução Francesa — amálgama de todos os vícios, de todas as ambições corruptas, de todos os pecados, de todas as misérias: — foi a Revolução Francesa que desvalorizou a Nobreza, a Inteligência, a Coragem, o Serviço e o Sacrifício, para valorizar exclusivamente o Dinheiro. No antigo regime, havia um regulador de valores — o Rei.»«... A Revolução Francesa fez do Dinheiro a escada segura para todas as ambições. Diante do Dinheiro, não há barreiras, não há impossíveis. Vale-se não o que se vale, mas o que se tem. Quem governa hoje o mundo? A Banca. E quem deu à Banca o governo do mundo?A Revolução Francesa. A Democracia é, pois, o governo do Dinheiro. Quem tem dinheiro compra. Há milhares de maneiras de comprar. E como a Democracia é o regime das opiniões, há que comprar as opiniões. Quem mais dinheiro tem, melhor e mais opiniões compra.»«... Os actos essenciais da Democracia chamam-se eleições. As eleições custam muito dinheiro. Há chefe eleitoral que gasta muitos contos de réis para ganhar as suas eleições. O resultado do acto eleitoral é uma função do Dinheiro. É o Dinheiro que põe no mesmo nível o Génio e o Imbecil, o Criminoso e o Virtuoso — pois que no seio farto da Urna, tanto vale o voto do sr. Gomes Teixeira, como o do Menino do Castelo, e tanto significa o voto de S. Francisco de Assis como o do chefe da Legião Vermelha. Ao homem de talento que vive, pobremente, na mansarda pobre, todas as atenções são regateadas, mas o idiota que vive no seu Palácio de luxo, vê abrirem-se-lhe todas as portas, e vê-se cheio de todas as honras. Ao homem de talento a quem as dificuldades da vida sujeitam às mais duras provas — não se lhe celebram as virtudes, mas aqueles que ignoram o que sejam dificuldades da vida, a esses seguem-nos hinos e apoteoses. Dizia-me uma vez uma das mais altas inteligências portuguesas que opiniões era um luxo que só os ricos se podiam permitir.A Democracia desaparecerá — porque a Inteligência, o Espírito, a Honra, a Coragem, o Serviço, o Sacrifício, e o que resta da Nobreza estão em revolta — indignando-se o predomínio ultrajante do Dinheiro. A Democracia faliu, porque se averiguou que o governo do Dinheiro faliu. Ele não deu a felicidade aos Povos: arrastou-nos para um baixo e hediondo materialismo. Há que regressar a um regime de hierarquias de valores organizados — sob a acção de um regulador desinteressado: o Rei. Há que fechar o ciclo da Revolução Francesa, o ciclo da Democracia. O Dinheiro é um elemento de troca: não pode ser de modo nenhum um critério de governo.»«... Há muita gente que vive apoquentada com a influência da alta Finança, e que atribui todos os nossos males à Finança. Há um grande fundo de verdade nisto.Estamos, efectivamente, em regime plutocrata, — agora acentuadíssimo, depois que a República se proclamou. Disse, no meu último artigo, que a Revolução Francesa, instaurada a Democracia, instaurou o regime do Dinheiro. Hoje, é o Dinheiro que governa — mas não só no Estado: principalmente, talvez, na vida social. E é desta que ele atinge aquele. A Democracia substituiu a moral antiga, cristã, espiritual, pela moral material do Dinheiro. Estes, os factos. E toda a gente que me lê me dá razão.»«... O mal do dinheiro está sob o ponto de vista agora considerado em ele ser agente de corrupção política. E é-o sempre que intervém como Dinheiro, fazendo pesar o seu valor, na direcção dos negócios do Estado.Quando um homem é ministro pelo seu dinheiro, que não pela sua inteligência e pela sua competência; quando um homem é deputado, pelo seu dinheiro, que não pelas suas aptidões e pelo seu alto saber; quando um homem é um alto funcionário público, director de uma gazeta política, chefe de um Partido ou seu elemento preponderante, pelo dinheiro que tem, e não pelas suas qualidades intelectuais; quando um homem é escutado e lisonjeado pelos poderes do Estado, só pelo dinheiro que possui; quando um Estado e uma Sociedade se deixam cegar pelo poder do dinheiro, fazendo dele a sua aspiração fundamental e subordinando-lhe todos os valores intelectuais e espirituais — então, sim, então estamos em Plutocracia, a qual só é possível verdadeiramente na Democracia.Vejamos. Em Democracia, quem faz o Presidente da República, e os Ministros? É o Parlamento. E quem faz o Parlamento?São os influentes eleitorais. Ora há duas espécies de influentes eleitorais: os que têm a influência que lhes dá o Poder central, de quem são serventuários, e os que têm influência própria. Os primeiros são muito poucos, e a sua influência é muito instável. Os que caracterizam o fenómeno são os segundos. Ora, por via de regra, os influentes da segunda categoria devem a sua influência ao dinheiro que dispõem. As eleições são operações muito caras. Para as ganhar, é preciso gastar muito dinheiro. Resulta daqui que as ganham os mais ricos, e contra os ricos não há eleição que vingue. Nas épocas eleitorais — é um ror de subscrições que se abrem. Pede-se dinheiro em altos berros, porque sem dinheiro, assim se proclama, não há eleição possível. Logo, quem faz o Parlamento? É o Dinheiro. E quem faz os Ministros e o Presidente da República? É o Dinheiro. «... Em regime de opinião, quem quer opiniões, compra-as. A Democracia é o regime de opinião. É o regime das opinião compradas.É por isso que nós nos batemos por um regime anti-democrático, que será, portanto, anti-plutocrático, que será o contrário dos regimes de opinião. Nós queremos um regime em que o critério da Administração seja o do Interesse nacional, um regime em que o Dinheiro exerça as suas funções legítimas — a pessoal e a social - e não tenha ambiente para exercer função política. Nós queremos um regime em que o Poder fixo do Estado esteja superior às opiniões e seja efectivamente soberano, e reine e governe — ponto de concentração e harmonia de todos os interesses. Nós queremos um regime que não seja, como o democrático, o regime da Nota de Banco. Não há exemplo na História de um Rei jungido ao poder do Dinheiro; como não há na História exemplo de Democracia que não tenha o culto do Dinheiro. Democracia e Plutocracia equivalem-se.»«...O regime de opinião é a anarquia ou a mentira. Numa campanha eleitoral, todos são corruptores ou mentirosos — para todos prometem o mais que podem, fartos de saber que não darão nada. No dia em que o povo se convencer de que anda permanentemente enganado, e de que o único regime político que lhe convém é aquele em que trabalhe e unicamente trabalhe — nesse dia, o povo pondo termo ao ludíbrio de que anda sendo vítima, reencontra o caminho da sua prosperidade.»
Por Alfredo Pimenta: in: Fontes Medievais da História de Portugal. Volume I: Anais e Crónicas, 1948 ; 1982

O sentido cristão da história. Dom Prósper Guéranger

Apresentação
Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Com prazer apresentamos aos leitores de língua portuguesa a nossa tradução (ao que nos consta inédita no Brasil) do importante e sempre atual texto de Dom Prosper Guéranger O sentido cristão da história. Dom Guéranger (1805-1875) foi um célebre religioso beneditino francês, restaurador da Ordem de São Bento na França após a Revolução Francesa e abade da famosa Abadia de Solesmes. Sua formação intelectual desenvolveu-se sob a influência dos escritores católicos tradicionalistas e românticos do século XIX, merecendo especial menção Felicite de La Mennais (o primeiro La Mennais) e Chateaubriand.
Deve-se recordar que tal ambiente cultural sofria a deficiência de uma sólida metafísica que permitisse uma visão mais clara e rigorosa da realidade e dos problemas do mundo nascido da Revolução Francesa. Essa fundamentação filosófica só viria mais tarde com a renovação dos estudos tomistas propiciada pela encíclica Aeterni Patris de Leão XIII. Não obstante, o trabalho produzido pelos chamados apologistas católicos contra-revolucionários não deve ser menosprezado. Esses autores tiveram o mérito de apontar erros graves da ideologia revolucionária e o perigo de os católicos se deixarem contaminar.
No caso da obra de Dom Guéranger, cujo primeiro capítulo ora traduzimos, chama-nos a atenção o discernimento do autor quanto às diversas concepções da história, mostrando a necessidade de evitar uma visão naturalista ou humanitarista da história, que poderiam seduzir mais facilmente um espírito católico menos prevenido que uma concepção da história abertamente fatalista ou materialista. Dom Guéranger sublinha desde o início que sem o elemento sobrenatural é impossível compreender o drama da história e cita diversos autores pagãos da Antigüidade que corroboram de alguma forma sua tese. Para ele, Cristo é o Senhor absoluto da história, todos os acontecimentos, todas as vicissitudes no transcorrer dos séculos se encadeiam e ordenam para o fim último do plano divino da Criação, a saber a salvação do eleitos pelo sacrifício do Filho de Deus feito Homem.
Como se vê, afirmando o elemento sobrenatural, Dom Guéranger estabelece a lei fundamental da história. Humanamente não se explicam certos acontecimentos históricos que superam as forças físicas e os fatores econômicos. Há uma Providência que conduz a história; há também a liberdade humana capaz de colaborar com a graça ou de a ela opor-se. Na história se dá o mesmo que na vida de cada homem. Assim como o homem pode julgar suas próprias ações como ordenadas ou não a seu fim último sobrenatural, assim também pode julgar os grandes fastos como frutos da sua colaboração com a graça para a realização do plano salvífico ou produtos da sua soberba de querer realizar na terra um reino independente de Deus.
Dessa forma, Dom Guéranger tira conseqüências práticas da vida espiritual para a tarefa do católico filósofo da história. Lendo esse belo texto de Dom Guéranger, o católico vê como é tacanha e ridícula a concepção marxista da história e se enche de entusiasmo pelo ideal de trabalhar para o reino de Cristo na história, pois se convence de que o tempo é dado à família humana para buscar a salvação eterna e, por maior que seja a malícia do homem que se deixa enredar pelo príncipe deste mundo e por frustrantes que sejam as derrotas dos homens de bem humilhados muitas vezes por aqueles que "fazem a história", é no tempo que o homem se santifica ou se perde, mas o plano de Deus se cumpre e o resultado final será feliz. A história é, à luz da fé, um prolongamento da obra da Criação. Se não fosse boa, se não tivesse razão de ser, se não estivesse ordenada a um fim, se o Filho de Deus não fosse o seu herói, Deus não a manteria na sucessão dos séculos.

O SENTIDO CRISTÃO DA HISTÓRIA
Dom Guéranger


Capítulo I
O sobrenatural na história

Assim como, para o cristão, a filosofia separada da fé não existe, assim também, para ele, não existe história puramente humana. O homem foi divinamente chamado para o estado sobrenatural; este estado é o fim do homem; os anais da humanidade devem oferecer um traço dessa realidade. Deus podia deixar o homem no estado natural; aprouve a sua bondade chamá-lo a uma ordem superior, comunicando-se a ele, e chamando-o, por fim, à visão e a possessão da sua divina essência; a fisiologia e a psicologia naturais são ineptas para explicar o homem em seu destino. Para o fazer completamente e exatamente, é mister recorrer à revelação, e toda a filosofia que, abstraindo a fé, pretende determinar apenas pela razão o fim do homem, é, portanto, acoimada de heterodoxia. Somente Deus podia ensinar ao homem pela revelação tudo que está realmente no plano divino; só na revelação se acha a chave do verdadeiro sistema do homem. Sem dúvida a razão pode, em suas especulações, analisar os fenômenos do espírito, da alma e do corpo, mas justamente porque ela não pode captar o fenômeno da graça que transforma o espírito, a alma e o corpo, para uni-los a Deus de uma maneira inefável, ela não está em condições de explicar plenamente o homem tal como é, seja quando a graça santificante habitando-o faz dele um ser divino, seja quando esse elemento sobrenatural repelido pelo pecado, ou não tendo ainda penetrado, o homem se acha abaixo de si mesmo.
De maneira que não há, nem pode haver verdadeiro conhecimento do homem, fazendo-se abstração do dado da revelação. A revelação sobrenatural não era necessária em si mesma: o homem não tinha nenhum direito a ela; mas desde que Deus a deu e promulgou, a natureza só não basta para explicar o homem. A graça, a presença ou ausência da graça, entram em primeira linha no estudo antropológico. Não há em nós uma faculdade que não seja chamada a ter um complemento divino; a graça aspira a percorrer o homem inteiro, a fixar-se nele em todos os graus; e é a fim de que nada falte a essa harmonia do natural e do sobrenatural nessa criatura privilegiada, que o Homem-Deus instituiu seus sacramentos que a arrebatam, elevam, deificam, desde o momento do nascimento até os umbrais da eternidade, do bem supremo que ela já possuía, mas que ela não podia perceber senão pela fé.
Mas se o homem não pode ser conhecido inteiramente sem o auxílio da luz revelada, presume-se que a sociedade humana, em suas diversas fases que se chama história, possa ser explicável se não se recorre a essa mesma luz que nos ilumina sobre nossa natureza e nosso destino individuais? A humanidade teria porventura outro destino diferente do homem? A humanidade seria então algo diverso do homem multiplicado? Não. Chamando o homem à união divina, o Criador convida igualmente a humanidade. Vê-lo-emos bem no último dia quando de todos esses milhares de indivíduos se formar á direita do soberano juiz, esse povo imenso, "que é impossível contar, diz-nos São João (Apoc. VII, 9). Entrementes, a humanidade, quero dizer, a história é o grande teatro sobre o qual a importância do elemento sobrenatural se manifesta à luz do dia, seja que pela docilidade dos povos à fé ele domina as tendências baixas e perversas que se fazem sentir nas nações como nos indivíduos, seja que ele arrefeça e pareça extinguir-se pelo mau uso da liberdade humana, que seria o suicídio dos impérios, se Deus não os tivesse criado "restauráveis" (Sab. I, 14).
Por conseguinte, a história deve ser cristã, se ela quer ser verdadeira; pois o cristianismo é a verdade completa; e todo sistema histórico que faz abstração da ordem sobrenatural na exposição e apreciação dos fatos é um sistema falso que não explica nada e deixa os anais da humanidade em um caos e contradição permanente com todas as idéias que a razão concebe acerca dos destinos da nossa espécie na terra. É justamente porque o sentiram, que os historiadores dos nossos dias que não têm a fé cristã se deixaram arrastar a estranhas idéias, quando quiseram fazer o que chamam filosofia da história. Essa necessidade de generalização , não existia no tempo do paganismo. Os historiadores dos gentios não tiveram uma visão de conjunto sobre os anais da humanidade. A idéia de pátria é tudo para eles, e não se percebe jamais uma preocupação do narrador, por menor que seja, com relação ao gênero humano considerado em si mesmo. De resto, é somente a partir do cristianismo que a história começou a ser tratada de maneira sintética; o cristianismo, conduzindo sempre o pensamento aos destinos sobrenaturais do gênero humano, acostumou nosso espírito a ver além do círculo estreito do egoísmo nacionalista. É em Jesus Cristo que se revelou a fraternidade humana e, desde então, a história geral tornou-se um objeto de estudo. O paganismo não teria podido jamais escrever senão uma fria estatística dos fatos, se ele estivesse em condições de escrever de uma maneira completa a história universal do mundo. Ainda não se fez notar suficientemente: a religião cristã criou a verdadeira ciência histórica, dando-lhe por base a Bíblia, e ninguém pode negar que hoje, a despeito das lacunas, estamos mais avançados no conhecimento dos povos da Antigüidade do que o foram os historiadores que essa mesma antigüidade nos legou.
Os narradores não cristãos do XVIII e do XIX séculos emprestaram, pois, ao método cristão o modo de generalização; mas dirigiram-no contra o sistema ortodoxo. Eles sentiram com argúcia que, dominando a história e colocando-a a serviço de suas idéias, aplicavam o duro golpe ao princípio sobrenatural; tanto é verdade que a história testemunha a favor do cristianismo. O sucesso desses historiadores foi enorme sob esse aspecto; nem todos têm a capacidade de perceber um sofisma; mas todos compreendem um fato, um encadeamento de fatos, sobretudo quando o historiador conhece esse acento particular que cada geração exige daqueles aos quais ela concede o privilégio de encantá-la. Três escolas exploraram sucessivamente e às vezes simultaneamente o campo da história. A escola fatalista, a que chamaríamos atéia, a qual não vê senão a necessidade nos acontecimentos, e mostra a espécie humana prisioneira do invencível encadeamento de causas brutais seguidas de inevitáveis efeitos. A escola humanista que se prostra diante do ídolo do gênero humano, cujo desenvolvimento progressivo, apoiado nas revoluções, filosofias, religiões ela proclama. Essa escola consente facilmente em admitir a ação de Deus, ao início, como tendo dado princípio à humanidade; mas a humanidade uma vez emancipada, Deus a deixou fazer seu caminho, e ela avança pela via de uma perfeição indefinida, despojando-se em seu percurso de tudo que poderia fazer obstáculo à sua marcha livre e independente. Enfim, temos a escola naturalista, a mais perigosa das três, porquanto apresenta uma aparência de cristianismo, proclamando em cada página a ação da Providência divina. Essa escola tem por princípio fazer constantemente abstração do elemento sobrenatural; para ela, a revelação não existe, o cristianismo é um incidente feliz e benfazejo no qual aparece a ação de causas providenciais: mas quem sabe se amanhã, se em um século ou dois, os recursos inesgotáveis que Deus possui para o governo do mundo, não conduzirão a outra forma mais perfeita ainda, com a ajuda da qual se verá o gênero humano correr, sob o olhar de Deus, em demanda de novos destinos, e iluminar-se a história de um esplendor mais vivo?
Afora essas três escolas só resta a escola cristã. Esta não procura nada, não inventa nada e não hesita. Seu procedimento é simples: consiste em julgar a humanidade, como ela julga o homem individual. Sua filosofia da história está baseada na fé. Ela sabe que o Filho de Deus feito homem é o rei desse mundo, que "todo poder lhe foi dado no céu e na terra" (MT. XXVIII, 18). O advento do Verbo Encarnado é para ela o ponto culminante dos anais humanos; é por isso que ela divide a duração da história em duas grandes partes: antes de Cristo, depois de Cristo. Antes de Jesus Cristo, numerosos séculos de espera: após Cristo, uma duração cujo segredo nenhum homem conhece, por que nenhum homem conhece a hora do nascimento do último eleito; por que o mundo não se conserve senão para os eleitos que são a causa da vinda do Filho de Deus encarnado. À luz desse dado certo de uma certeza divina, a história não tem mais mistérios para o cristão. Se ele volta seus olhos para o período que escoou antes da Encarnação do Verbo, tudo se explica a seus olhos. O movimento das diversas raças, a sucessão dos impérios é o caminho aberto pela passagem do Homem-Deus e dos seus profetas; a depravação, as trevas, as calamidades inauditas são sinais da necessidade premente da humanidade de ver Aquele que é ao mesmo tempo Salvador e Luz do mundo; não que Deus haja condenado à ignorância e ao castigo esse primeiro período da humanidade; longe disso, os recursos lhe foram assegurados; a esse período pertenceu Abraão, o pai de todos os crentes do futuro; mas é justo que a maior efusão da graça se tenha dado pelas mãos divinas Daquele sem o qual ninguém pode ser justo, seja antes, seja depois da sua vinda.

O Messias chega, e a humanidade, cujo progresso estava estagnado, lança-se na via da luz e da vida; o historiador cristão segue melhor ainda os destinos da sociedade humana nesse segundo período onde todas as promessas são cumpridas. Os ensinamentos do Homem-Deus revelam-lhe com uma soberana clareza o modo de apreciação que ele deve empregar para julgar os acontecimentos, sua moralidade e alcance. Só há uma medida, quer se trate de um homem ou de um povo. Tudo que exprime, mantém ou propaga o elemento sobrenatural é socialmente útil e vantajoso; tudo que o contradiz, debilita ou nega é socialmente funesto. Por esse procedimento infalível, ele tem inteligência do papel dos homens de ação, dos acontecimentos, das crises, das transformações, das decadências; ele sabe de antemão que Deus age em sua bondade, ou permite em sua justiça, mas sempre sem revogar seu plano eterno, que é o de glorificar seu Filho na humanidade.
Mas o que torna sempre mais firme e mais serena a reflexão do historiador cristão é a certeza que lhe dá a Igreja que marcha diante dele como uma coluna luminosa e alumia divinamente todo os seus juízos. Ele sabe que vínculo estreito une a Igreja ao Homem-Deus, como ela é assegurada por sua promessa contra todo erro no ensinamento e na direção geral da sociedade cristã, como o Espírito Santo a anima e conduz; é, pois, nela que ele buscará o critério dos seus juízos. As fraquezas dos homens da Igreja, os abusos temporais não o escandalizam, por que ele sabe o Pai de família houve por bem tolerar o joio em seu campo até a ceifa. Se ele deve narrar, ele não omitirá os tristes episódios que testemunham as paixões da humanidade e atestam ao mesmo tempo a força do braço de Deus que sustenta sua obra; mas ele sabe onde se manifesta a direção, o espírito da Igreja, seu instinto divino. Recebe-os, aceita-os, confessa-os corajosamente; aplica-os em seu trabalho de historiador. Igualmente, nunca trai, nunca sacrifica; diz que é bom o que a Igreja julga bom, mau o que a Igreja julga mau. Que lhe importam os sarcasmos, as chacotas dos covardes medíocres? Ele sabe que está com a verdade por que está com a Igreja e que a Igreja está com Cristo. Outros não quererão ver senão o lado político dos acontecimentos, voltarão ao critério pagão; ele ficará firme, por que está seguro de não se enganar.
Se hoje as aparências parecem ser contra seu julgamento, ele sabe que amanhã , os fatos cujo alcance ainda não se revelou, darão razão à Igreja e a ele. Essa posição é modesta, concedo; mas gostaria de sabe que garantias comparáveis têm a apresentar o historiador fatalista, o historiador humanitarista, o historiador naturalista. Eles emitem previamente seu juízo pessoal: cada um tem, então, o direito de dar-lhes as costas. Para chegar ao historiador cristão, é necessário antes demolir a Igreja sobre a qual ele se apóia. É verdade que há dezenove séculos que os tiranos e filósofos trabalham para isso; mas suas muralhas são tão solidamente construídas que até hoje não puderam arrancar-lhe uma pedra sequer.
Mas se nosso historiador se aplica a buscar e a assinalar, na seqüência dos acontecimentos desse mundo, o vínculo que liga de perto ou de longe cada um deles ao princípio sobrenatural, com mais forte razão evitará ele calar, dissimular, atenuar os fatos que Deus produz fora da conduta ordinária, e têm por fim certificar e tornar mais palpável ainda o caráter maravilhoso das relações que ele fundou entre si mesmo e a humanidade. Inicialmente, há três grandes manifestações do poder divino e dão pelo milagre um sinete divino aos destinos do homem sobre a terra. O primeiro desses fatos é a existência e o papel do povo judeu no mundo. O historiador não pode abster-se de frisar a aliança que Deus primeiramente estabeleceu com esse pequeno povo, os prodígios inauditos que o distinguiram; a esperança da humanidade depositada no sangue de Abraão e Davi, a missão conferida a essa raça frágil e desprezada de conservar o conhecimento do verdadeiro Deus e os princípios da moral, em meio à defecção sucessiva de quase todos os povos; as migrações de Israel para o Egito primeiro, mais tarde para o centro do império assírio, sempre à medida que o teatro dos negócios humanos se altera e se estende; de sorte que à véspera do dia em que Roma, herdeira momentânea dos outros impérios, vai ser rainha e senhora da maior parte do mundo civilizado, o judeu a terá precedido por toda parte; ele estará lá com seus oráculos traduzidos doravante na língua grega; ele será conhecido de todos os povos, isolado, infusível, sinal de contradição, mas dando diariamente testemunho da chegada cada vez mais próxima daquele que deve unir todas as nações e "reunir em um só corpo os filhos de Deus até então dispersos" (São João XI, 52).
Essa influência milagrosa do povo judeu que foge a todas a leis ordinárias da história, o narrador a fará ver com prazer através das profecias confiadas a esse povo, as quais não são apenas para nós uma luz do passado, mas inquietaram tão vivamente os gentios, durante os séculos que precederam e seguiram a vinda do Filho de Deus. Cícero havia ouvido dela um eco quando falou, com uma espécie de terror misterioso, do novo império que se preparava; Virgílio, no mais harmonioso dos seus cânticos, repete os acentos de Isaias; Tácito e Suetônio atestam que o universo inteiro se volta, com expectativa, para a Judéia, e que o pressentimento geral é de ver chegar desse país homens que vão fazer a conquista do mundo. Rerum potirentur. Negar-se-á ainda que a história, para ser verídica, deva tomar o tom e as cores do sobrenatural?
O segundo fato que se encadeia ao primeiro é a conversão dos gentios para além do império romano. O historiador cristão deverá mostrar que esse imenso resultado procede diretamente da mão de Deus, que, para operá-lo, franqueou leis simplesmente providenciais. Aí assinalará, com Santo Agostinho, o milagre dos milagres; com Bossuet, fará ver algo tão estupendo que não tem semelhança senão com o momento em que a criação saiu do nada para a glória do seu Criador. Ele contará a grandeza colossal do fim e a exigüidade dos meios; as preparações significativas com uma tão grande mudança que pressagiam que esse mundo deve pertencer a Jesus Cristo, ao mesmo tempo que elas são por si mesmas um obstáculo a mais a todo sucesso humano de empreendimento; os apóstolos , armados somente da palavra e do dom dos milagres que a confirma e a faz penetrar; as profecias judias estudadas, comparadas, aprofundadas em todo o império, e tornando-se, como no-lo atestam os escritos dos três primeiros séculos, um dos mais poderosos instrumentos das conversões; a constância sobre-humana dos mártires, cuja imolação quase incessante, longe de extirpar a nova sociedade, a propaga e a fortifica; enfim, a cruz, o cadafalso do filho de Maria, coroando após três séculos o diadema dos Césares; as idéias, a linguagem, as leis, os costumes, em uma palavra todas as coisas transformadas segundo o plano que haviam trazido da Judéia os conquistadores da nova espécie que o império esperava, e que souberam triunfar dele, derramando seu sangue sob sua espada.
Em meio a todos esses prodígios o historiador cristão está à vontade e nada o espanta, porque ele sabe e proclama que tudo na terra é para os eleitos e que os eleitos são para Cristo. Cristo está com ele na história; portanto, é claro que não possa explicá-la sem Ele, e que com Ele ela apareça em toda sua clareza e em toda sua grandeza. A seqüência dos anais da humanidade responde ao começo; mas desde a publicação do Evangelho, os destinos do mundo tomaram um novo curso; depois de ter esperado seu rei, a terra agora o possui. A preparação sobrenatural que se tinha manifestado no papel do povo judeu, essa outra preparação ao mesmo tempo natural e sobrenatural que tinha aparecido na marcha sempre progressiva do poderio romano chegaram a seu cume. Tudo está consumado, Jerusalém cede seus direitos e suas honras a Roma; Tito é o executor das altas obras do Pai celeste que vinga o sangue de seu Filho Eterno. O milagre do povo judeu não cessa entretanto aí; transforma-se, e as nações terão sob seus olhos, até a vigília do último dia, não mais o espetáculo de um povo privilegiado, mas de um povo amaldiçoado por Deus. Quanto ao império pagão, ele edificou, sem o saber, a capital do Reino de Jesus Cristo; ser-lhe-á dado sediá-lo por três séculos; é de lá que partirão os editos sanguinários que não terão outro efeito que o de mostrar aos séculos futuros o vigor sobrenatural do cristianismo; pois quando chegar o tempo, ele cederá lugar, ele irá refugiar-se em Bósforo, e a indefectível dinastia dos Vigários de Cristo que não abandonou o posto desde o martírio de Pedro, seu primeiro elo cingirá a coroa na cidade de sete colinas. O império cairá pedra por pedra sob os golpes dos bárbaros; mas antes de lhe infligir a humilhação e o castigo que crimes seculares acumularam sobre ele, a justiça divina esperará que o cristianismo, vitorioso das perseguições, haja estendido bem alto e bem longe seus ramos para dominar em todas as paragens os vagalhões desse novo dilúvio; ver-se-á então o império cultivar novamente, e com pleno sucesso, a terra renovada e rejuvenescida por essas águas mais purificadoras ainda que devastadoras.
Havendo exposto todas essas maravilhas, o historiador cristão mudará o tom do sua narrativa? Incorrerá ele em uma explicação simplesmente providencial dos fastos da terra? O maravilhoso é porventura o ponto central dos anais da humanidade, de sorte que doravante a ação divina deva permanecer velada sob as causas segundas até o fim dos tempos? Deus não queira que assim seja! Um terceiro fato sobrenatural, fato que deve durar até a consumação dos séculos chama-lhe a atenção e reclama-lhe toda eloqüência. Esse fato é a conservação da Igreja através dos tempos, sem corrupção da sua doutrina, sem alteração da sua hierarquia, sem interrupção da sua duração, sem sucumbência em sua marcha. Milhões de coisas humanas foram inventadas, desenvolveram-se e decaíram: a conduta ordinária da Providência velou por elas durante sua duração; hoje elas têm apenas um traço na história. A Igreja continua de pé; Deus a sustenta diretamente, e todos os homens de boa fé, capazes de aplicar as leis da analogia, podem ler nos fatos que lhe concernem essa promessa imortal de durar sempre, que ela traz inscrita pela mão de Deus em seu fundamento. As heresias, os escândalos, as defecções, as conquistas, as revoluções, nada a fere de morte; repudiada em um país, ela dirige-se a outro; sempre visível, sempre católica, sempre vitoriosa e sempre provada. Esse terceiro fato, que é uma conseqüência dos dois primeiros, acaba de dar ao historiador cristão a razão de ser da humanidade. Ele conclui com evidência que a vocação da nossa espécie é uma vocação sobrenatural; que as nações sobre a terra não pertencem somente a Deus que criou a primeira família humana, mas que elas são também, como disse o Profeta, o domínio particular do Homem-Deus. De maneira que, quanto mais mistérios na sucessão dos séculos, quanto mais vicissitudes inexplicáveis, tudo enfim se resume nesse dado divino.
Sei que é necessário hoje muita coragem, sobretudo quando não se faz parte do clero, para tratar a história sob essa ótica; crê-se sinceramente; não se quer por nada desse mundo admitir as teorias das escolas fatalista e humanitária; mas a escola naturalista é tão influente pelo número e talento; ela é tão benévola com o cristianismo, que se torna difícil criticá-la em tudo e não passar a seus olhos por um escritor místico, por um poeta, quando se aspira, ao contrário, ser tido na conta de homem de ciência ou filósofo. Tudo que posso dizer é que a história foi tratada, do ponto de vista que me permiti expor, por dois grandes gênios cristãos, cuja reputação está acima de qualquer dúvida. A Cidade de Deus de Santo Agostinho, os Discursos sobre a História Universal de Bossuet são duas aplicações da teoria que explanei acima. O caminho, portanto, foi traçado por mão de mestre, e pode-se incorrer, a despeito de tais homens, nos fúteis juízos do naturalismo contemporâneo. É muito bom, sem dúvida, regular a própria vida interior pelo princípio sobrenatural; mas seria uma inconseqüência, uma falta de responsabilidade, que esse mesmo princípio não guiasse sempre a pluma. Vejamos a humanidade em suas relações com Jesus Cristo seu chefe; não a separemos dele jamais em nossos juízos nem em nossos trabalhos historiográficos, e quando nossos olhos se detêm sobre o orbe terrestre, recordemo-nos antes de tudo de que temos sob os olhos o império do Homem-Deus e de sua Igreja.

Entrevista com Tomas Molnar: 40 anos depois do Vaticano II

40 anos depois do Concílio Vaticano II
Entrevista com
TOMAS MOLNAR, famoso intelectual católico, húngaro, professor na Universidade americana de Yale. Tirada do livro "Du mal moderne. Symptomes e antidotes"


Questão
E o Vaticano II? Até que ponto o Concílio transformou a Igreja?
Sobre esta questão, há várias posições. Os progressistas asseveram que o Concílio permitiu uma abertura ao mundo ainda imperfeita e tímida, e que se trata de torná-lo ainda mais radical, permitindo, por exemplo, o sacerdócio das mulheres, a contracepção, o aborto; os integristas condenam o Concílio, considerado como um largo compromisso [com o mundo] pelo qual a Igreja foi desfigurada. O Santo Padre, o Papa Bento XVI, por sua vez, desde que era Cardeal, afirma que o Concílio foi um benefício, mas que muitas vezes foi mal entendido. E o senhor, o que acha do Concílio?

Resposta de Tomas Molnar:
Quanto ao Concílio Vaticano II, coloco-me entre os integristas, na condição que aceiteis não falar em "integristas", mas meramente de simples católicos. Deve-se muito aos integristas, agüentaram os primeiros choques deste concílio dominado pelos radicais militantes. Retrospectivamente, é preciso dizer que tinham razão. As observações de Ratzinger são a prova disto. Se Monsenhor Lefebvre deixasse de combater, Ratzinger não ... [duas palavras ilegíveis], na sua avaliação do trabalho conciliar. Outras provas? As multidões de fiéis feridos que abandonaram a Igreja; a incapacidade desta de inspirar as formas da sensibilidade religiosa, ao menos a arte, a música, a arquitetura, a literatura, todas as áreas nas quais a Igreja se esterilizou, por assim dizer.
Diz-se que o Concílio é uma coisa e o pós-concílio outra. Não é nada. O Concílio e o que se seguiu é a mesma coisa. É o capítulo mais negro da história da Igreja, tanto mais que não é nada certo que possamos remediar isto nos próximos séculos. O diagnóstico não é difícil. Sem falar nas vicissitudes doutrinais que têm a sua lógica própria, a Igreja de Paulo VI capitulou frente à sociedade civil, ao indiferentismo, à heresia americanista, em sumo, frente ao protestantismo e ao modernismo. A vantagem, se me permite esta expressão, porque se trata de uma catástrofe não só para a Igreja, mas para toda a humanidade, abandonada hoje às seitas – a vantagem, portanto, é que vemos bem o castigo imediato: aborto maciço, a inundação da corrupção sexual, a devastação causada pela droga, a família destruída (50% de divórcio). Todas as motivações sociológicas têm pouco peso ou nada: é a Igreja que é responsável, esta Igreja prosternada diante da ONU, uma Igreja que persegue os crentes e que os escandaliza pelas suas mascaradas.

A Essência do Progressismo

H. Le Caron

É inútil nos iludirmos. O que aconteceu depois do último Concílio prova que "o progressismo cristão", condenado pelos papas precedentes com diferentes qualificativos (L'Avenir por Gregório XVI; os "católicos liberais" por Pio IX; o "americanismo" por Leão XIII; o "modernismo" e o Sillon de Marc Sangnier por Pio X), terminou por intoxicar grande parte da Igreja, até os mais altos escalões.
O espírito pós-conciliar, na realidade, é o espírito progressista. O verdadeiro espírito pós-conciliar, fundado no respeito à doutrina e à tradição, se é que chegou a existir, foi abafado há já muito tempo.
A atual mutação da Igreja foi desejada e preparada desde Lamennais, isto é, desde há 150 anos.
Depois de ter caminhado de maneira subterrânea, a heresia progressista chegou à tona no momento do Concílio; o que até então eram raízes perniciosas, desabrochou e deu os frutos envenenados que surpreenderam e envolveram bom número de padres conciliares (os que não pertenciam à minoria ativa, que, ela sim, sabia perfeitamente o que fazia).
Não é fácil discernir o vírus progressista — freqüentemente não se descobre sua presença a não ser constatando seus efeitos (como numa doença). Seus efeitos são múltiplos, o que engana muitas vezes os católicos fiéis.
São Pio X, que o desmascarou de maneira extraordinária, constatava: "Combinando em si o racionalismo e o catolicismo, eles (os modernistas) o fazem com tal refinamento de habilidade, que transviam os espíritos desprevenidos... Ah! se se tratasse somente deles, poderíamos, talvez, contemporizar; mas é a religião católica e sua segurança que estão em jogo."

I — O Espírito Progressista, Chave do Problema

O espírito progressista difere enormemente do espírito de um católico romano. A fé que professa não é a nossa.
Para o modernista, precisa São Pio X, "a fé, princípio e fundamento de toda religião, reside em certo sentimento íntimo decorrente da necessidade do divino... A Revelação não pode ser outra coisa senão a consciência adquirida pelo homem das relações existentes entre Deus e ele."
Assim, já não nos encontramos diante de verdades objetivas que se impõem, como, por exemplo, Jesus, segunda pessoa da Santíssima Trindade, Redentor do gênero humano, verdades às quais devemos aderir sem discutir (e às quais o homem de fé adere sob inspiração da Graça).
Encontramo-nos, ao contrário, em presença de um sentimento íntimo, subjetivo, às vezes vago, que a inteligência analisará e interpretará e que, uma vez aprovado pela Igreja, acabará por constituir um dogma. Disso resulta que o dogma nascerá do próprio crente e evoluirá conforme evoluir o sentimento de onde se origina. É por isso que uma das máximas favoritas do modernismo é que a evolução religiosa deve "coordenar-se (ou subordinar-se) à evolução intelectual e moral".
A fé católica permite-nos aderir a verdades objetivas, exteriores ao homem (Revelação e ensinamentos da Igreja). A fé progressista é uma projeção de um sentimento de religiosidade
[1].
Ela pode variar continuamente como o sentimento que a anima. Para o progressista, "a verdade não é mais imutável que o próprio homem, porque evolui com ele, nele e por ele". As fórmulas dogmáticas são submetidas às mesmas vicissitudes, às mesmas mutações que os estados de alma dos crentes, como observou São Pio X na Pascendi: "Fica assim aberto o caminho à variação substancial dos dogmas."
Por conseguinte, podemos afirmar que a fé progressista é diametralmente oposta à fé católica. Ela constitui uma verdadeira inversão, apresentando, sem dúvida, caráter satânico; como a maior parte das inversões.
Essa inversão espiritual se situa no lado oposto ao do espírito de fé verdadeira que é a dos santos. A fé progressista, se podemos chamar de fé o estado de espírito deles, é toda sentimental, imaginativa, feita de sonhos que permitem ao homem procurar-se a si mesmo em vez de procurar e encontrar a Deus. Os santos, ao contrário, na sua humildade, numa ascese permanente, procuram sem cessar conformar as suas vontades à vontade de Deus, ao qual se sentem unidos por um laço de amor.
O que importa, com efeito, não é projetar nosso sentimento, ainda que seja de ordem religiosa, por meio de reformas permanentes e estéreis promulgadas pelo magistério. A Criação é perfeita, e nós não lhe acrescentaremos nada com nossos esforços. O único objetivo a perseguir é, com paciência, nas trevas da fé, purificarmo-nos, separando-nos do velho homem, implorando a graça e deixando-nos conduzir por ela, e assim aproximarmo-nos do Imutável, d’Aquele que se definiu a si próprio como aquele que é.
A verdadeira evolução permite à criatura, machucada pelo pecado original, de que guarda a cicatriz, mas resgatada pelo sacrifício redentor, avançar em direção ao Absoluto que é seu criador. Ela é interior e pessoal. Torna-nos capazes de passar do plano natural ao plano sobrenatural pela fé em Jesus Cristo
[2].
O progressismo, ao contrário, ao procurar-se a si próprio, não sai do plano natural. Pensa enriquecer o cosmo, pensa progredir, mas dá voltas como gato que corre atrás do próprio rabo.
Santo Agostinho diz que "dois amores construíram duas cidades: o amor de si próprio até o desprezo de Deus, e o amor de Deus até o desprezo de si próprio. Um se glorifica em si próprio, o outro no Senhor..."
São dois amores diferentes que criaram dois tipos de fé, de que resultaram duas cidades diferentes.
Os progressistas têm consciência mais nítida que os católicos fiéis de que se trata antes de tudo de um novo espírito. L. Saleron, em artigo recente (Itinéraries, n. 219), constata que, "depois de dez anos, nos fazem compreender em todas as ocasiões que os textos de Concílio só têm valor quando usados por quem tem espírito conciliar, isto é, espírito de evolução ou de revolução, espírito de inovação, de adaptação, de criatividade e de abertura para o mundo".
Esse espírito novo, que podemos chamar de espírito pós-conciliar, é o mal que corrói atualmente a Igreja Católica.
Teilhard de Chardin, que foi um dos artesãos dessa desordem, profetizou ao dizer: "Uma forma ainda desconhecida de religião está para germinar no coração do homem moderno, num sulco aberto pela idéia de Evolução..."
São Pio X foi o primeiro a perceber que o progressismo é, antes de tudo, um espírito destruidor de tudo o que constitui o fundamento do cristianismo.
Quando era diretor do grande seminário de Trévise, já punha seus seminaristas em guarda: "Não vos deixeis envolver por doutrinas fantasiosas e estrangeiras", dizia ele. "A verdade é absoluta e imutável... O que o primeiro homem e todo o Antigo Testamento acreditaram em germe é acreditado hoje pelos católicos. A fé antiga e a nossa se encontram e se ligam ao centro único e indissolúvel da verdade que é Jesus Cristo. Estudai a história de qualquer ciência e, ao contrário, nas mudanças sucessivas de suas teorias encontrareis a marca de sua falibilidade" (Pio X, de René Bazin).
Um pouco mais tarde, na Pascendi, o santo Papa revelará que as causas profundas da heresia modernista podem reduzir-se a duas: a curiosidade e o orgulho.

II — As Conseqüências deste Estado de Espírito
a) Observações Gerais:
Podemos constatá-las passo a passo.
O Courrier de Rome publicou um artigo, "Concílio e pós-concílio", onde o autor expõe essas conseqüências perfeitamente. Cita entre outras estas palavras do Papa reinante: "A Igreja convida todos os cristãos a uma tarefa dupla de animação e inovação a fim de fazer evoluir as estruturas para adaptá-las às necessidades atuais" (Carta de Paulo VI ao Cardeal Le Roy), e estas: "A Igreja entrou no movimento da História que evolui e que muda" (28-07-1971).
O autor cita também esta frase do Bispo de Metz no seu boletim diocesano de 1o. de outubro de 1967: "A mudança de civilização que vivemos acarreta mudanças não apenas em nosso comportamento exterior, mas na concepção que formamos tanto da criação quanto da salvação trazida por Jesus Cristo."
Os católicos de hoje, precisa ainda o autor do artigo, são impelidos a se pôr em "estado de pesquisa" para fazer evoluir, de modo muito aberto, a religião, a fim de melhor adaptá-la à evolução do pensamento e dos costumes.
O espírito progressista transpira atualmente no menor boletim paroquial ou em qualquer revista religiosa.
É o vírus destruidor da liturgia, da catequese, dos dogmas da Igreja.
O progressismo é muito mais perigoso que o protestantismo, porque destrói a Igreja por dentro e porque são os próprios padres e bispos os artífices desta destruição. Quando o progressismo já não é combatido pela hierarquia, sendo, ao contrário, favorecido, seus sucessos tornam-se fulminantes.
Estava escrevendo estas linhas, quando recebi o boletim (inverno de 76) da associação missionária de Assunção (apesar de não ser assinante).
Em um artigo intitulado: "Encontro com um Cristão Perturbado", o Padre André Sève descreve, sem querer, sem se dar conta, os estragos do progressismo nas almas, e por suas respostas mostra quais são as engrenagens intelectuais de um espírito progressista. (A leitura deste artigo é recomendável — traz todos os subsídios necessários aos adversários do progressismo.)
"O cristão perturbado", um Juan de tal, casado, quatro filhos, declara "ter nascido uma segunda vez com o Concílio Vaticano II e ser um filho do Vaticano II". Até converteu a esposa "a esta nova respiração cristã a plenos pulmões". O Concílio, diz ele "tinha feito deles cristãos mais abertos, mais livres, mais ao corrente de tudo." Nascera uma raça de cristãos adultos, cristãos que "refletem mais por si mesmos, que têm coragem de tomar uma decisão mais pessoal" — mas "vieram golpes duros que abateram e quebraram Juan e sua mulher". "A filha mais velha, solteira, ligou-se a um homem casado, e o filho único entrou para uma escola judia, para tornar-se rabino... Imagine-se uma coisa assim!" E Juan exprime suas desilusões: "O que aconteceu com nossos filhos? Éramos cristãos clássicos, ainda que não muito entusiasmados, é verdade, bafejados pela vida, rotineiros e a serviço dos padres."
"O Concílio fez de nós cristãos mais vivos, mais inteligentes, entusiasmados pela idéia de nos tornarmos mais responsáveis pela Igreja. E agora estamos diante de rapazes e moças que tudo põem em dúvida."
Nesta hora, o padre, que devia, como um bom pastor, deplorar as infelicidades de Juan e de sua mulher com palavras consoladoras, pergunta simplesmente: "A contestação não é tipicamente conciliar?"
E Juan, que se tinha escaldado, responde: "Sim, é, com a condição de manejá-la com prudência. É preciso ver de onde viemos e para onde vamos — nossos filhos ‘se lixam’ para o passado. Como algumas palavras mágicas, como colonianismo, libertação sexual ou análise marxista, liquidam qualquer debate sobre o dia de ontem... o que lhes interessa é envolver-se numa experiência, experimentar qualquer coisa: é preciso ver, não se pode falar daquilo que não se sabe. Saber, para eles, é fazer. No começo, lutamos, proibimos isto, exigimos aquilo, e falamos muito. Dizíamos", continua João: "não é possível, temos nossa fé para transmitir, nossa moral, nossa concepção de vida, mas, de tanto discutir, sentimos um mal-estar: onde estava nossa fé? Pedimos conselho, procuramos livros — o mal-estar aumentou, tínhamos perdido nossos marcos."
E então seu interlocutor, padre de Jesus Cristo, faz esta pergunta horrível: "Que marcos?" E como João lhe diz que as dúvidas perpétuas são muito interessantes, "mas que ele começa a se sentir à deriva", o Padre Seve, pensando "elevar-lhe a moral", pergunta: Vocês preferiam o "é preciso crer exatamente nisto, é preciso fazer exatamente aquilo?"
E o pobre João, que não ficou nada apaziguado por tal resposta, declara: "Não queria isto; não se pode voltar a ser um cristão de antes do Concílio, mas queria alguma coisa entre a precisão infantil e o grande vago — e eu tenho uma multidão sadicamente ‘em pesquisa’."
Então o padre, subitamente interessado em João, lhe pergunta: "Você também pesquisa?"
"Forçam-me a pesquisar", responde João, "e o que é que agora sei? Quais são minhas posições em relação aos problemas sexuais, ao aborto, à eutanásia, ao marxismo? Será que vejo alguma coisa bastante clara dentro de mim para responder às perguntas de meus filhos? Será que conheço Jesus Cristo como deve ser conhecido atualmente? Já não se pode fazer uma leitura ingênua do Evangelho (sic), mas qual é a leitura inteligente? A leitura que me porá em contato com Jesus Cristo vivo e atuante em 1976?"
Um pouco mais adiante, Juan, a quem o "caso de Monsenhor Lefebvre" fez refletir sobre sua própria evolução, mostra ainda sua confusão: "Isto parece simples, mas que se deve aceitar exatamente? O que disse o Concílio? E que disse ele? Para um cristão de base como eu, isto acaba por tornar-se mito, ser conciliar ou anticonciliar. Tenho todos os textos do Concílio, mas de que adianta?"
E o padre faz esta confissão, que corresponde ao que acabamos de expor: "Acho que se trata mais do espírito do que dos textos, sobretudo levando-se em conta as evoluções rápidas", e um pouco mais adiante: "É preciso perceber o grande movimento conciliar... O conservadorismo é a coisa mais grave, porque mata a vida..."
Citamos trechos extraídos desta notável entrevista porque ela mostra de modo claro os estragos que o progressismo provoca nas almas. (Padre Sève escreveu numerosas "Entrevistas–encontros" em La Croix, órgão oficial da Arquidiocese de Paris.)
b) As Conseqüências do Espírito Progressista na Liturgia:
Se se aprender a chave do problema, quer dizer, se se analisar convenientemente o que constitui "o espírito progressista", compreender-se-á quais são as conseqüências deste estado de espírito, tanto na liturgia como na catequese e na Igreja.
A propósito da liturgia, M. Louis Saleron em seu notável trabalho sobre a nova missa (Nouvelles Editions Latines) precisa (pp. 39 ss):
"A constituição conciliar acerca da liturgia fixou regras e orientações. Os inovadores puseram-se a interpretá-las invocando o que chamam ‘o espírito do Concílio’ e que o Papa chama, para bem o marcar, "o espírito pós-conciliar".
Este dito espírito pós-conciliar alimenta e mantém um clima revolucionário, em que, entre muitos outros, cinco temas principais de subversão recebem incentivo especial: "a volta às fontes", "a dessacralização", "a inteligibilidade", o "comunitarismo" e o "culto do homem".
A volta às fontes permite romper com a tradição e introduzir concepções próprias, que são batizadas de "concepções primitivas". Sustenta-se então que "o espírito constantino perverteu tudo".
Uma verdadeira volta às fontes deveria ser acompanhada de uma revalorização do sagrado! Mas entre os progressistas é ao contrário o que se passa — dá-se a dessacralização. Padre Antoine, na revista jesuíta Études (março de 1967), propõe que as catedrais sejam convertidas em museus. Precisa: "Recusamos toda valorização intrínseca ou ontológica de qualquer lugar de per si sagrado; o que tornaria a localizar o divino." E nós nos espantamos de ver as catedrais e igrejas servir de lugar de reunião a toda a sorte de manifestações que já nada têm de religiosas (por exemplo, o escândalo da Catedral de Reims); espantamo-nos com a comunhão na mão, com a indecência dos trajes na casa do Senhor...
A inteligibilidade, escreve Louis Saleron, é um tema querido aos inovadores. "É em nome da inteligibilidade que empreendem a demolição dos ritos litúrgicos" (banimento do latim, introdução de formas heréticas como "da mesma natureza do pai", que é mais compreensível, dizem eles, do que "consubstancial ao pai").
O comunitarismo, que grassa cada vez mais na Igreja, e em todos os níveis, manifesta-se pela importância crescente dada aos grupos — colegiados, assembléias, equipes, associações e reuniões de todo o gênero, comunidades de base, que são organizadas para "pesquisas", pesquisas essas que acabam na maior parte das vezes nas piores extravagâncias, como: "uma missa só é válida se a comunidade está presente para participar da missa", apesar de a doutrina católica estabelecer nitidamente que um padre pode celebrar a missa sem a presença física dos fiéis. É preciso compreender bem o que se chama "comunitarismo" — trata-se de um eufemismo que permite introduzir a democracia na Igreja e solapar a autoridade que vem ao alto.
O culto do homem — M. Saleron escreveu sobre isso que "o denominador comum dos desregramentos que observamos hoje, tanto no domínio da fé quanto no da liturgia, não passa da substituição progressiva do Culto de Deus pelo culto do homem. Revirou-se a crença cristã. Deixou-se a fé cristã de que Deus criou o homem e o Verbo se fez carne, para conceber um Deus que é o próprio homem em vias de se tornar Deus". Este é o espírito progressista. A inversão espiritual (inversão da atitude do espírito) tem por conseqüência direta uma inversão da religião.
Assim, em resumo, pode-se afirmar que, todas as vezes que se constata na liturgia uma glorificação do homem, uma dessacralização, uma diminuição dos dogmas e dos mistérios pela supressão ou interpretação subjetiva dos textos, se trata de inspiração progressista. E ainda não vimos tudo, pois nos anunciam que a Igreja ainda está no início das "mutações".
c) As Conseqüências do Espírito Progressista na Catequese:
Em seu jornal hebdomadário n. 451, de 20/12/76, M. Pierre Debray examina o que aconteceu com "a instrução religiosa", usando uma brochura editada pelo Centro Regional de Ensino Religioso do Oeste" e intitulada Proprietários da Verdade? (tomamos nossos exemplos no que há de mais atual).
Para o autor da brochura, a "transmissão" da fé já não aparece como um saber que a catequese comunica. Os Apóstolos tinham encerrado o essencial da fé nas fórmulas ditas "querigmáticas". Para eles, a fé da Igreja possuía uma realidade objetiva. Não podia ser entregue ao arbitrário. São Paulo escrevia aos Tessalonicenses: "Nós vos ordenamos [...] que vos aparteis de todo o irmão que viver desordenadamente, e não segundo a doutrina que receberam de nós" (II Tes 3,6).
"A nova catequese vira as costas ao ensinamento dos Apóstolos." O educador "caminha com a criança ou com o moço, cada um se pondo em dúvida, cada um apresentando ao outro a sua própria verdade".
Deste modo, a fé perdeu todo o conteúdo objetivo — é o puro subjetivismo (um filósofo diria que se trata de uma espécie de "idealismo", sistema que nega qualquer forma de realidade objetiva exterior ao "eu").
Com tal ensino, pergunta-se: Qual será o futuro espiritual destas pobres crianças? Segundo uma pesquisa recente, não mais que 7% de franceses são capazes de explicar convenientemente o que significa "Natal".
Seria instrutivo igualmente saber qual a percentagem de padres e de bispos capazes de recitar ainda o Credo (Símbolo de Nicéia), sem nenhuma hesitação.
d) As Conseqüências do Espírito Progressista na Igreja:
O que foi feito da Igreja, una, santa, católica e apostólica, mestra de verdade e guarda da verdade?
Já ninguém ousa perguntar. Que desmoronamento em tão poucos anos! Até os protestantes se espantam e se inquietam. Essa é a obra do espírito progressista, que solapou o edifício como faria um exército de cupins.
Quando os inovadores dizem que a Igreja nunca esteve tão resplandecente, que isso é um novo nascimento, que o Concílio Vaticano II "foi tão importante, mais importante até que o Concílio de Nicéia", tem-se o mesmo sobressalto que quando se ouve o secretário-geral do Partido Comunista Chileno afirmar "que já não existem prisioneiros políticos na URSS".
São Pio X profetizara que, se deixassem campo livre, o espírito progressista destruiria tudo, incluídas as bases da fé, como está destruindo nestes dias.
Quem é cego e quem se deixa cegar? Os inovadores e os tolos pretendem que dois mil e quinhentos bispos não podem enganar-se nem enganar-nos; mas o argumento não é convincente. O número nunca fez a verdade. E existem precedentes. No tempo de Ário, a quase totalidade dos bispos se deixou levar pela heresia. Santo Atanásio e Santo Hilário foram canonizados, mais tarde, porque foram os que se levantaram contra a heresia geral.
Por outro lado, ignoramos o que pensa a maior parte dos bispos. Talvez façam a si mesmos muito mais perguntas do que imaginamos.
Sabemos muito bem que a tarefa dos bispos não é fácil. A força de caráter desaparece nas nossas sociedades cheias de delinqüência, e a Igreja não foi poupada. A autoridade diminui — os clérigos obedecem cada vez menos — e, ainda que quisessem, poderiam agora nossos bispos reagir? Sabe-se que, hoje em dia, a imprensa católica e os principais meios de expressão estão nas mãos dos progressistas, que exercem forte pressão sobre a hierarquia. Mas por que esses bispos, mais ou menos reduzidos à impotência ou ultrapassados, declaram guerra a um bispo corajoso como M. Lefebvre e contra seu seminário, que forma padres fiéis à tradição? É isto o que nos espanta e inquieta.
Não devemos, no entanto, mostrar-nos tão pessimistas. A Igreja recebeu de seu fundador as promessas de eternidade. Se Jesus Cristo ressuscitou no terceiro dia, para estupor de seus inimigos, depois de ter sido colocado no sepulcro, por que a Igreja, corpo místico do Cristo, não conheceria as mesmas provas e o mesmo triunfo?
III — O Espírito Progressista na Teologia Moderna
A teologia moderna faz compreender quanto os padres conciliares ficaram intoxicados. Ela explica a evolução da Igreja atual.
Não tenho a pretensão de tratar de assunto tão vasto em poucos parágrafos.
Aconselho o leitor a se valer dos estudos admiráveis do prof. Marcel de Corte, de Louis Saleron, do padre Philippe de la Trinité e de outros filósofos e teólogos de grande valor e de grande saber.
Pessoalmente, acho que os maiores responsáveis pela evolução catastrófica da Igreja foram Maritain (o Maritain de Humanismo Integral), Teilhard de Chardin, e Karl Rahner, da Companhia de Jesus, que teve influência determinante no último Concílio (Lamennais pertenceu ao século passado). Os três tinham espírito progressista.

A — Maritain foi um dos mestres do pensamento do Papa reinante, depois de ter sido eminente tomista. Deixou-se levar pelo espírito progressista. Não se deve esquecer que foi grande amigo de Mounier e que cooperou na criação da revista Esprit. Há um ano expus no Courrier (n.148 — "A grande ilusão") o que é o "humanismo integral" de Maritain.
Este, considerando como fato definitivo o desaparecimento da "concepção cristã sagrada do temporal" (realeza social de Nosso Senhor, com seu corolário, a doutrina dita "dos dois gládios"), propunha substituí-la por uma "concepção profana cristã", não exigindo sequer um mínimo doutrinário comum. Esta fraternidade universal e democrática, compreendendo cristãos e não-cristãos, devia, segundo Maritain, realizar sua unidade numa "obra prática comum".
Nesta nova civilização, "a obra comum já não apareceria como obra divina a ser realizada na terra pelo homem, mas como obra humana a ser realizada pela introdução de qualquer coisa de divino, que é o amor, nos meios humanos e nos trabalhos humanos"
[3].
Assim a "obra da cidade dos homens seria realizar, aqui em baixo, um regime temporal realmente conforme à dignidade humana, a essa vocação e a esse amor".
A Igreja, no meio dessa sociedade universal (que conheceria forçosamente a paz, porque o povo seria soberano), tornar-se-ia uma modesta e discreta inspiradora, somente.
A força animadora dessa nova civilização seria cristã, mas de maneira indireta, sem que se fizesse referência a Jesus Cristo, pela simples prática da vida comum, em que se introduziria essa "qualquer coisa de divino". Todos os sincretismos religiosos se tornariam possíveis, e poderíamos até reconciliar a França da Revolução com a França de Joana d’Arc.
Vê-se que há uma aproximação perigosa da doutrina de Maritain com o MASDU (Movimento de Animação Espiritual da Democracia Universal), denunciada de maneira notável, há já muito tempo, pelo Abbé de Nantes.
Mas essa doutrina é absolutamente contrária à da Realeza Social de Nosso Senhor, professada pelos maiores Papas.
Para nos convencermos, basta-nos reler a Imortale Dei de Leão XIII ou a Intaurare omnia in Christo (4 de outubro de 1903), de São Pio X.
É portanto necessário, declarava este grande santo, "pela palavra e pelas obras, reivindicar para Deus a plenitude de seu domínio sobre os homens e sobre toda a obra criada, de modo que seus direitos e seu poder de comandar sejam reconhecidos".
A doutrina de Maritain "enterra" definitivamente a doutrina chamada dos "dois gládios", sem a qual, estou convencido, não haverá nenhuma renovação possível nem na sociedade nem na Igreja. Também quanto a isto São Pio X foi clarividente, quando, no momento da separação entre a Igreja e o Estado na França, escreveu na encíclica Vehementer (11/02/1906): "Que se deva separar a Igreja do Estado é uma tese completamente falsa, um erro pernicioso. [...] Essa tese é a negação clara da ordem sobrenatural. Ela limita a ação do Estado à finalidade única da prosperidade pública, durante esta vida... Subverte a ordem estabelecida por Deus no mundo, ordem que exige harmoniosa concordância entre as duas sociedades [...]. Que princípio se invoca para separar o Estado da Igreja? O seguinte: que o Estado não deve reconhecer nenhum culto, grave injúria a Deus, criador do homem e fundador das sociedades humanas, a quem é devido não somente um culto privado mas um culto público e social."
Nossos leitores notarão que a política atual do Vaticano tende a fazer desaparecer todas as concordatas. Essa política, que pareceria insensata a São Pio X, é o corolário da nova doutrina sobre a liberdade religiosa em foro externo, de cujo esquema o mínimo que se pode dizer é que é o mais equívoco de todos os que o Concílio promulgou.
A igualdade das religiões, trate-se da verdadeira ou das falsas, e a neutralidade do Estado devem permitir a realização de um sincretismo religioso que foi sempre o objetivo das Grandes Lojas da maçonaria.

B — Teilhard de Chardin, que influenciou grande número de padres conciliares, foi o homem que os progressistas desejavam e esperavam.
Este jesuíta procurou adaptar os dogmas à ciência. Ele acreditava na mutação do homem pelo progresso, o que permitiria achar uma solução para as oposições entre a fé no mundo e a fé em Deus.
"Servindo ao mundo, servimos ao Cristo Universal", dizia ele, "assim como, servindo ao Cristo, servimos ao mundo" (fusão do profano e do religioso no seio de uma evolução homogênea, ao mesmo tempo cósmica e crística, em direção ao ponto Cristo-Ômega).
Teilhard estava persuadido de que, no dia em que o cristianismo aceitasse converter-se às esperanças terrestres para divinizá-las, ficaríamos "estupefatos vendo as torrentes de povos refluir para Jesuralém".
Essa conversão às esperanças terrestres se produziu na Igreja atual, mas a "estupefação" dos católicos não é a que profetizou Teilhard... Os povos não refluem para Jerusalém... mas muitos católicos saem da Igreja.
A ilusão teilhardiana foi condenada, antes que aparecesse, por São Pio X na Pascendi: "Para o modernista", afirmava o Santo Papa, "o dogma deve estar em harmonia com o que os mantenedores do erro chamam ‘a ciência e a história’ e que não é, na realidade, nada mais que a opinião atual de alguns cientistas e historiadores agradáveis ao modernismo."
C — Karl Rahner, diz Marcel de Corte, compreendeu que a empresa de modernização da fé católica não chegaria a termo sem a conversão intelectual dos teólogos católicos às exigências do pensamento filosófico moderno, em particular à antropologia transcendental, isto é, a ciência que se adquire pela tomada de consciência do homem acerca de si mesmo fora da experiência de qualquer realidade. Assim, Rahner, discípulo de Heidegger, acredita que o homem tem o poder de sobrepujar-se a si próprio fazendo-se seu próprio criador, e ao mundo exterior dando-lhe um sentido, ao qual aquele deve submeter-se. A verdade científica ou teológica já não se define pela conformidade da inteligência à realidade, mas, ao contrário, pela adaptação da realidade ao dinamismo do espírito, ávido de lhe dar sentido... A palavra de Deus, longe de nutrir o discurso teológico, não é senão a ocasião de refletir, antes e essencialmente, acerca das condições da possibilidade de sua acolhida. Assim, o catecismo holandês perguntará como um espírito moderno pode aceitar o dogma do pecado original ou a conceição virginal de Maria.
Na perspectiva de Rahner e de seus amigos, a antropologia transcendental obriga a remodelar completamente o Evangelho, a tradição e a Igreja, para os adaptar às exigências de suas subjetividades — é a inversão modernista que denunciamos no começo deste artigo.
O exame dessas perspectivas demonstra que o caso de M. Lefebvre não se reduz a uma questão de batina ou de latim. Estamos diante de uma nova religião e de uma fé oposta à antiga. Como profetizou Teilhard, a Igreja chega a um período de "muda" ou de "reforma necessária", como sucede, segundo ele, à própria humanidade. "A reforma já não é um simples caso de instituição e de costumes, é um caso de fé."
IV — São Pio X Previu Todas as Conseqüências Que Decorreriam do Espírito Modernista
Ele o conseguiu porque, com seu olhar de águia e com a ajuda do Espírito Santo (o Espírito Santo esclarece a inteligência), analisou admiravelmente o que é o espírito modernista. Definiu-o como "a encruzilhada de todas as heresias, que não deixam subsistir nada das verdades da fé."
"O Cristo filho de Deus", disse ele, "é negado; a doutrina da morte expiatória de Cristo é declarada não-evangélica, mas simplesmente ‘paulina’. O Credo de Nicéia, muito favorável à divindade de Jesus, ‘não é a doutrina que Jesus ensinou’. Os sacramentos já não são os sacramentos; não tem outro fim senão lembrar ao espírito do homem a bondade do criador." Mais adiante (na Pascendi) Pio X resume as ditas reformas que a heresia aconselha à Igreja. Muitas dessas reformas foram já realizadas.
— A escolástica já não será ensinada nos seminários. Em lugar da doutrina tomista, será ensinada a filosofia moderna. O dogma será posto em harmonia com a "ciência e a história".
— O governo da Igreja será reformado em todos os seus ramos, e será posto em harmonia com a democracia (veja-se a atual colegialidade e a ditadura das repartições e conferências eclesiásticas).
— As congregações, e particularmente as do Santo Ofício e do Índex, que atrapalham a heresia, serão postas em situação de já não prejudicar (o que já foi feito).
— O celibato eclesiástico será abolido (projeta-se essa abolição).
Esta enumeração é assustadora. Mas tudo a que assistimos era previsível, se se analisasse corretamente o espírito progressista.
Ao meditarmos os textos de São Pio X, perguntamo-nos necessariamente como se conciliam eles com certas reflexões ou com certas declarações de Paulo VI. Se um deles tem razão, o outro forçosamente está errado.
Como escreveu Marcel de Corte (Itinéraires, 2a. nota sobre a heresia conciliar), "podemos fazer um catálogo impressionante das declarações dos dois últimos papas que contradizem frontalmente as afirmações mais nítidas e mais reiteradas dos papas anteriores. Paulo VI não recua nem sequer diante dos desmentidos que ele se inflige a si mesmo".
O Papa reinante é um mistério.
O "Credo" de Paulo VI e a encíclica Humanae Vitae pareceriam provar que ele tem a fé católica; mas o seu "humanismo’, sua imensa admiração pelo homem e pela democracia deixam supor que ele tenha tendências e simpatias progressista
[4].
A fé em Deus vivo, a fé no Cristo Rei é compatível com a fé no homem colocado num pedestal?
Esta questão não parece preocupar o Papa reinante. Tenho a impressão (posso estar enganado) de que ele se instalou nessa dualidade e se acomodou como um homem igualmente ligado à sua mulher e à "outra", sendo sincero nas suas afeições pluralistas.
A dificuldade que ele resolve mais ou menos bem é a de manter certo equilíbrio (mas por quanto tempo?) entre as duas tendências. Santo Agostinho escreveu: "Dois amores construíram duas cidades..." Um amor misto cria uma cidade confusa e equívoca... É a imagem que nos dá a Igreja pós-conciliar.
Os católicos que estão preocupados com esse estado de coisas têm freqüentemente uma idéia falsa da infalibilidade do Papa. Um erro professado por um Bispo não se torna verdade se ele sobe ao trono de São Pedro.
A infalibilidade não existe se a nova doutrina está em contradição com as proposições definidas anteriormente ou com o ensino tradicional da Igreja. O prof. Marcel de Corte (art. cit. em Itinéraires) afirma: "Encontramo-nos aqui fora do tempo, no nível do Eterno, e nesse nível o papel do Magistério não pode jamais ser o de criar coisas novas que diferem da verdade imutável e que irrompem no tempo, nem o de provocar uma mudança, uma mutação da Igreja e na Igreja, como se diz na algaravia de hoje, mas sim o de manifestar mais plenamente para nós a única verdade inalterável."
[5]
Teríamos muito que escrever sobre esse assunto. Sei de fonte segura que D. Guéranger, voltando do Concílio Vaticano I, disse, chorando, a um amigo que o felicitava por ter sido o artesão do dogma da infalibilidade papal, "que a definição não fora suficientemente clara e que os italianos eram tão espertos, que a utilizariam um dia para fins contrários ao seu espírito".
Apesar de tudo, e ainda que a frase careça de precisão, a definição do Vaticano I sobre a infalibilidade do Papa terá constituído uma muralha contra todas as inovações atuais do modernismo.
Para um cristão fiel, os dogmas já definidos não podem mais voltar a ser postos em discussão.
É por isto que, na crise atual da Igreja, nós devemos permanecer agarrados ao dogma e ao ensinamento tradicional do Magistério. Eles constituem uma rocha que os progressistas procurarão, em vão, derrubar. Chegará o momento em que eles desfalecerão contra ela.
V — Conclusão
O progressista está sempre à procura porque não acredita em nada.
Mas essa pesquisa permanente destrói a verdadeira fé, sobretudo se emana de padres e bispos.
Aí está a armadilha. Existirá uma atitude mais desconcertante para um fiel do que ver posto em dúvida aquilo que constituía a própria base da fé? Se a Igreja se enganou durante quase dois mil anos, onde estará a verdade desde o último Concílio?
Dessa maneira, insinua-se a dúvida nas almas e acaba-se por destruir a fé. O progressista é um assassino no sentido mais completo do termo.
Os progressistas não são homens de fé porque não são homens de verdade. Estas palavras de São Paulo lhes dizem respeito diretamente: "Porque eles não abriram seus corações à verdade que os salva é que Deus lhes envia ilusões profundas que os fazem acreditar na mentira."
O verdadeiro Amor (Deus é a Verdade) condiciona a verdadeira fé e dá a vida (porque Deus se disse também a Vida).
O progressismo é uma doutrina de morte. Os progressistas são liberais porque não acreditam na verdade, e não acreditam porque não a amam.
O Amor, a Fé, a Vida, tudo se encadeia e se mantém.


[1] Se você tem sentimentos revolucionários, projete esses sentimentos no objeto que é Cristo, e ele se tornará um precursor de Fidel Castro ou de Che Guevara. Se você tiver teorias científicas, como Teilhard de Chardin, projete um Cristo cósmico etc.
[2] A Salvação também é individual. Ela não é nem nunca será coletiva.
[3] Na nova liturgia: "O vinho, fruto do trabalho do homem".
[4] Costumam apresentá-lo como um homem dilacerado, mas pode-se permanecer dilacerado durante tanto tempo?
[5] Lembremo-nos de que Paulo VI (12/1/1966) fez a seguinte declaração: "Dado o caráter pastoral do Concílio, evitou-se proclamar, de maneira extraordinária, dogmas dotados da nota de infalibilidade."



(do Courrier de Rome nº169, tradução de Maria Tereza Ferreira da Costa e Anna Luiza Fleichman, e publicado na Revista Permanência, ano XII, nº 124/125, 1979.)

Fernando Rodrigues Batista

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot