sábado, 17 de março de 2007

Lembrando Gustavo Corção

João Bigotte Chorão
(Trabalho publicado em Dezembro de 1976, ainda em vida de Gustavo Corção {foto}).
*João Bigote Chorão - Crítico e ensaísta português. Licenciado em Direito. Obras principais: O Discípulo Noturno (diário), 1969; Camilo, a Obra e o Homem (ensaio biográfico), 1979; O Escritorio na Cidade (ensaios e crônicas), 1986.
No mesmo ano e um mês antes do presente trabalho, escreveu Bigote Chorão sobre outro grande escritor brasileiro, Plínio Salgado, que consta no livro "Plínio Salgado in Memorian", pela Editora Voz do Oeste.


UM ESCRITOR VERTICAL


Se é exacta a informação da enciclopédia que consulto, o escritor Gustavo Corção ultrapassa agora a difícil barreira dos 80. Quem, vai para três anos ou mais, o viu, de olhos já meio apagados, os ossos bailando num sobretudo talhado para corpo menos frágil, tem que espantar-se da sua capacidade de trabalho e da energia do seu espírito. Todas as semanas, e em mais de um jornal, os seus artigos ágeis e agressivos desmentem junto dos leitores a certidão de idade do autor. O corpo, exausto e doente, reclama a aposentação; mas não lhe consente o merecido repouso o espinho do dever: enquanto lhe restar um sopro de vida, ele ali está a combater pela palavra os desconcertos do século. Corção é um destes espíritos privilegiados que dominam não importa que matéria. Indiferentemente ensina - ele que tanto se orgulha do título de professor - teologia, filosofia, matemática, astronomia, física... Ensinou sempre: ainda estudante, os colegas mais novos ou menos dotados; leccionou no velho colégio da família; depois, noutros estabelecimentos particulares e em estabelecimentos oficiais; mas é no livro e na imprensa que ele tem ensinado gerações de leitores. Com toda a sua cultura, e a sua inteligência, e a sua vocação polémica - que mais não é, para quem tenha olhos e veja, que a máscara da sua indisfarçável ternura -, Corção ensina hoje através de uma intensa actividade jornalística. A religião, ou melhor, a crise da Igreja constitui o tema predilecto, ia a escrever obsessivo, dos seus artigos. Afinando pelos critérios da filosofia tomista e da tradição patrística, Corção vem travando uma luta desigual contra o que se pode chamar a grande coligação clerical-marxista. Noutro tempo os inimigos ficavam fora do templo; hoje estão dentro dele - para melhor o demolirem. Se as heresias são necessárias para robustecer a fé, a verdade é que não vemos aí nem uma sólida elaboração teológica nem grandes obras ascéticas em resposta ao desafio dos novos tempos e dos falsos profetas. Pelo contrário, vemos como é tíbia a reacção à audácia do adversário. Mais: observamos uma espécie de cedência ou de pacto, que começando pelo uso da linguagem do adversário acaba pela adopção da sua filosofia. A colaboração, ab initio confinada à ordem prática, vem a converter-se em colaboração no domínio dos princípios. Os objectivos, que - por pudor ou hipocrisia - se afirmam a princípio diversos, revelam-se no final convergentes. É contra esta colaboração com quem pretende destruir-nos depois de se haver aproveitado da nossa ingenuidade, da nossa ignorância, da nossa cobardia ou da nossa estupidez, que se ergue Corção. Não lhe falta, para o áspero combate, nem a preparação doutrinal nem os recursos dialécticos, a ironia e o estilo. Não lhe falta, ainda, a coragem moral de gritar o que nós apenas ciciamos e de trocar o aplauso mundano pelo insulto, o silêncio, a solidão. Ele sabe que não estamos aqui, nesta selva em que erramos como meninos ou como tontos, para sermos coroados de louros. Se alguma coroa nos está reservada, é a de espinhos. Ah!, os cães (para usar a vigorosa linguagem do profeta Isaías) que não dormem e ladram à aproximação de lobo recebem como recompensa a ira dos pastores, que pegam do cajado para castigar os guardiões fiéis e não para afugentar as feras que rondam o rebanho. O leitor habitual de Corção conhece quais os autores que ocorrem com maior assiduidade nos seus escritos. Paulo, Tomás de Aquino, Catarina de Siena são os seus santos patronos: S. Paulo, que combatia o bom combate com inteligência e idioma de fogo; S. Tomás, que lembrava uma catedral gótica, solidamente implantada na terra, mas de agulhas perdidas no céu; Santa Catarina, que extraía da sua ignorância uma inspirada sabedoria. Vêm depois os autores profanos: em primeiro lugar, Machado de Assis, com a sua prosa enxuta e o seu humor trágico; o maciço Chesterton, com a agilidade inesperada dos seus paradoxos, bom filósofo na pele de um divertido jogral; Maritain, o sério tomista; o impaciente mendigo Bloy, profeta de um advento de luz ou de sangue; o nosso Camões, glosando, num canto magoado e viril, o eterno mote do desconcerto do Mundo; o nosso Eça, com a galeria das suas personagens e a graça do seu estilo; o nosso Pessoa, com uma lucidez que chega a parecer insensata. Não são muitos os autores que Corção exiba num alarde de novo-riquismo intelectual. Mas são autores, todos eles e a diverso título, assaz recomendáveis. Gaba-se até Corção de frequentar poucos autores. E recorda que, sendo estudante, teve a fortuna de manusear a Antologia de Carlos Laet e Fausto Barreto, onde aprendeu "a discernir as riquezas, a admirar a beleza da língua e a amar os autores que tão bem a serviram. Desde cedo - acrescenta Corção -, querendo mais pegar a alma da língua do que a variedade cultural, poucos autores e poucas obras me bastavam. Com a Antologia de Fausto Barreto e Carlos Laet, eu dispensava bibliotecas inteiras ou para elas avivava o apetite". (0 Globo, 1 de Fevereiro de 1975.) Conheço Corção desde que me conheço como leitor que busca e encontra - não os teria encontrado se os não tivesse procurado - os seus próprios autores. Esses autores – e Corção é um deles - foram a alegria da minha juventude e a minha verdadeira universidade. Ensinei-me a mim mesmo, lendo obras que ninguém me recomendava mas que um instinto seguro me fazia descobrir. Se não tivesse encontrado Corção - nessa idade em que o espírito a tudo se afeiçoa, caminho, e estaria agora onde estão muitos que desertaram. Não aceitava naquele tempo como não aceito hoje (isto de palavra revelada só a da Bíblia ou, para o não crente, a de qualquer cartilha política que rumina até ao nojo a voz do dono) tudo quanto Corção escrevia ou escreve. Mas, tentando sempre distinguir o essencial do acessório, nunca pude deixar de reconhecer a Corção o seu dom de escritor e a sua verticalidade de homem. Quando todos nos acomodamos, numa tácita ou expressa cumplicidade, dispostos a entrar num diálogo que é afinal um monólogo imposto pelo adversário, lá vem aquele desmancha prazeres do Corção a chamar as coisas pelo nome. E nada escapa à férula do polemista, que não recua diante de títulos ou de cargos, nem cuida de vénias mundanas e de habilidades diplomáticas. Tudo jogou no combate: o descanso merecido, a popularidade fácil, toda a sorte de prémios mais ou menos vis. Ora digam-me cá se, no meio de todo este espectáculo de prostituição literária, não será muito para ver-se e aplaudir-se o exemplo de um grande escritor que é também um homem vertical.


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Fernando Rodrigues Batista

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot