terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Liberdade ou libertinagem?


Gustave Thibon



Chegou-me casualmente às mãos a tradução de um comunicado cuja publicação ocorreu num número da revista "Culture Soviétique". Trata-se da resposta de uma alta autoridade do Ministério da Cultura a um jovem contestario que criticava "a atitude hipócrita das publicações, filmes e emissões de televisão soviéticos relativamente ao sexo" e que concluía: "sobre este assunto, a nossa informação está muito abaixo do nível internacional e é urgente abrir as comportas".
Por outras palavras, o referido jovem, deslumbrado pela liberdade sexual ao contemplar o mar de lama que inunda o Ocidente, verifica, despeitado, que a Rússia ainda está a seco e reclama um aumento maciço da produção pornográfica, a fim de restabelecer a paridade entre o seu país e as nações burguesas...
A revista reproduz a carta desse jovem e dá-lhe esta resposta oficial:
"Lenine sempre criticou implacavelmente a noção de amor livre como sendo de origem burguesa e estranha à moralidade soviética. Amor livre de quê? De toda a responsabilidade para com a pessoa que nos é querida? Mas tal amor, na realidade, "está livre do próprio amor", porque este sentimento, pela sua própria natureza e excelência, pressupõe sempre uma responsabilidade ao mesmo tempo para consigo mesmo e para com a pessoa amada".
Eu tenho dito centenas de vezes estas mesmas coisas, quase com as mesmas palavras, e alegra-me - uma vez não são vezes - o fato de me sentir de pleno acordo com o ensino oficial do Estado soviético. Só com a diferença de que, ao defender os princípios elementares da moral sexual, não me colocava sob o patrocínio sagrado de Lenine e obtinha o efeito de que me tratassem regularmente como um detestável burguês retrógrado. Pois bem, aqui estou eu agora afiançado pelo socialismo mais ortodoxo.
A eminente doutora que subscreve o comunicado prossegue nestes termos:
"Num país socialista, não há nenhuma razão para que se desenvolva a teoria do amor livre. Como médica, considero que a pornografia é nociva, sobretudo no período do desenvolvimento físico e espiritual dos adolescentes. A derrogação das leis contra a pornografia, no Ocidente, conduz a um verdadeiro beco sem saída moral e à sobre excitação de emoções perversas que não são naturais ao homem... A nossa sociedade deve velar pela saúde moral dos nossos jovens trabalhadores e estudantes".
Uma vez mais, não se pode deixar de aprovar sem restrições tal declaração, porque não se trata já de moral burguesa ou socialista, mas simplesmente da moral resultante das exigências do homem eterno. E temos de confessar que, neste ponto, o nosso liberalismo que conduz à distribuição da pílula às adolescentes, à democratização do aborto e à exibição pornográfica, este liberalismo avançado à maneira dos frutos bichosos e do queijo que se decompõe, desqualifica-nos no nosso combate pela liberdade contra os regimes totalitários.
Eis aonde conduz a dissociação entre a política e a moral que grassa nas nossas democracias deliquescentes. Mas um povo não pode viver indefinidamente sem moral e esta, rejeitada por uma liberdade transviada, renasce, mais cedo ou mais tarde, sob a pressão da tirania política. Daqui a alternativa que se põe ao Ocidente: ou salvar livremente a liberdade impondo-lhe as disciplinas necessárias à sobrevivência, ou continuar a deixar a liberdade degradar-se em libertinagem - o que exige o mesmo remédio que um membro incuravelmente gangrenado: a amputação.

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Fernando Rodrigues Batista

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot