sábado, 28 de abril de 2007

O dever que nos impõe a hora presente

As vetustas considerações de Antonio Sardinha abaixo transcritas vencem o escoamento do tempo e se nos apresenta como uma diretriz a ser seguida.
Nada obstante, termos ciência de que poucos são os abnegados a se disporem a tal empresa, da crença em ideal maior que nós mesmos, o que não se conquista sem penosos sacrifícios; estamos certos de estes poucos, porém, nobres homens de fé, muito podem empreender no sentido de salvaguardar o que ainda resta de civilização ocidental e cristã. Não constituem palavras atiradas ao vácuo, não se trata de mera utopia, mas a crença inquebrantável de que, como disse alguém, mais vale acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão.


Amamos a vida, porque grita e estua dentro de nós. Mas amamos a vida no equilíbrio, na saúde, na posse dela própria.
Amamos a vida vivendo-a. E vivê-la não é estilizá-la, nem desperdiça-la. É referi-la a nós mesmos, é dar-lhe um sentido de atualidade e permanência.
Não a colocamos nem no Passado, nem na Imaginação, como a colocavam os avós literários de 1830. Muito menos a passeamos pelos terraços da Decadência, sonhando, em atmosferas de paradoxo e haxixe, uma beleza falsa de Paraíso Artificial.
A vida para nós é uma utilidade. Mas confira-se à palavra utilidade um significado de nobreza. É um utilidade que não nos pertence e que é preciso servir.
"Non Serviam!" – foi o grito rebelado de quantos apareceram primeiro que nós.
SERVIR! – é agora a ânsia mais funda do nosso coração, em que parece frutificar a semente de um misticismo novo. Por isso surgimos no momento máximo duma crise já secular. E logo nos tocou o gosto admirável da ordem, - como que um inesperado instinto de higiene interior e de arranjo social. Ia-se abaixo, num estridor de catástrofe, o patrimônio histórico da nacionalidade.
Dentro de nós, ressuscitou a psicologia ingênua de "Petit-Chose", jurando ao desalento da sua trapeira reconstruir o lar em ruínas. Foram diversas as jornadas que nos trouxeram a esta unidade de corpo e alma, que é o segredo da nossa vitória. Uns pegaram em armas e andaram rilhando a côdea dura dos guerrilheiros pelas ribas ásperas do exílio. Outros padeceram a agonia da própria mentira e só à custa de suores de sangue encontraram a sua estrada de Damasco. Hoje (...) existe uma vontade em nós, porque em nós existe uma crença.


Antônio Sardinha, em "Ao Ritmo da Ampulheta" de 1923.

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Fernando Rodrigues Batista

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot