quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma vela na escuridão

Gustave Thibon


"O sorriso não é algo devido, senão um favor, uma graça, a forma de converter um encontro em luz".

É a hora do descontentamento em todas suas formas, desde a lamentação resignada até a sublevação manifesta. Velhos e jovens se conciliam para denegrir o presente: uns sentem nostalgia do passado e outros colocam toda sua esperança nas mudanças que aportará o porvir. Em todos os graus da escala social, as pessoas lamentam de sua sorte e se esgotam em criticas. Em suma, ninguém está contente com nada, salvo de si mesmo, pois, quem aceita sua parte de responsabilidade nos males que deplora?
Ao sair de uma reunião impregnada por completo deste ambiente taciturno, o azar de uma leitura me fez reparar neste pensamento de Confúcio: "Mais vale acender uma luz, por pequena que seja, que maldizer a escuridão ".
A falta de vela

Um amigo a quem comentei esta sentença me respondeu: "De acordo, mas Confúcio viveu em uma sociedade descentralizada, de tipo agrícola e artesanal, onde o indivíduo podia fazer algo para remediar as desgraças da época. Quando anoitecia, se acendia uma vela; se fazia frio, podia-se recorrer a lenha nos bosque mais próximo e havia uma chaminé em cada casa para acender o fogo. Mas, o que se pode fazer hoje em dia em uma grande cidade quando um apagão de energia nos priva simultaneamente de luz e de calor?".
Igualmente, que recursos tem a iniciativa individual contra males como a inflação, o desemprego, uma greve dos correios ou de ferroviários? O mal adquiriu um caráter coletivo que exige igualmente remédios coletivos, quer dizer, medidas de conjunto que correspondem em grande parte aos poderes públicos. Daí a politização geral dos problemas sociais. "Que espera o governo para...?", diz espontaneamente o homem que passa pela rua. Em uma palavra, estamos em uma situação em que as pessoas, por falta de vela, não tem outro recurso senão maldizer a noite até que hasta que se solucione o problema da iluminação pública.
Reconheço — e este é o reverso angustioso de nossa técnica, as vezes libertadora pela potência dos meios que põe a nossa disposição, e alienante pelo excesso de centralização — que o homem moderno tem cada vez mais domínio sobre os elementos externos de seu destino. O que favorece por uma parte a passividade, pois se espera que as soluções venham de fora, e de outra o afã reivindicativo, o desejo de receber sempre mais. O indivíduo pode, sem embargo, acender uma vela nesta noite, ao menos estabelecendo o contato humano, tão reduzido hoje pela concentração e o anonimato tecnocrático. Nos lamentamos que a tecnocracia imponha aos homens relações quase unicamente funcionais. Mas depende de cada um de nós remontar este obstáculo. Ofereço como prova dois exemplos opostos.
Intercâmbio luminoso

Me encontrava faz alguns meses em uma oficina de correios. Uma anciã que desejava enviar uma carta disse timidamente a funcionária: "Esqueci meus óculos, teria a bondade de preencher meus dados?". A empregada, com um olhar em que se unem a frieza pessoal e a indiferença administrativa, responde irritada: "Crê que tenho tempo para fazer seu trabalho? Olhe o impresso e verá que diz: preencher pelo usuário". Ainda estou vendo a pobre anciã retirar-se (depois pude ajudá-la), andando mais devagar e com o ânimo gelado por esta acolhida glacial.
Outra oficina de correios da mesma cidade. Detrás de um dos guinches mais freqüentados, uma jovem tranqüila, amável, recebe a cada um com um sorriso espontâneo e acolhedor, desconhecido inclusive entre os comerciantes mais zelosos, porque tal sorriso se dirige não ao cliente, senão ao ser humano. Após fazer os envios postais aos quais tinha direito pagando as tarifas usuais, levei comigo esse sorriso inesperado que não era algo devido, senão um favor, uma graça. E, ademais, me senti disposto a sorrir aos interlocutores que devia encontrar durante a jornada, pois o bom humor, a atenção, a afabilidade, provocam reações em cadeia do mesmo modo que a indiferença ou a animosidade.
Este elemento de graça e gratidão (as duas palavras tem a mesma etimologia) confere as relações mais superficiais uma qualidade única e insubstituível. Graças a ele, o encontro anônimo de dois peões no tabuleiro social pode converter-se em um intercâmbio luminoso e vivo entre duas presenças. Este clarão de simpatia, que está ao alcance de todos em qualquer momento, ao dissipar a escuridão, nos evita maldizer.

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Fernando Rodrigues Batista

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot