quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Segundo domingo da Paixão: Domingo de Ramos

Padre Leonardo Castellani



O segundo comentário a Passio de São Mateus que havíamos prometido versar sobre a legalidade da morte Cristo.
Faz algum tempo liamos em um diário americano uma noticia curiosa: que os israelitas de Nova York queriam fazer uma revisão jurídica do processo de Cristo; quer dizer, reunir outra vez o Sinédrio, rever testemunhas e provas, e dar uma sentencia definitiva. Não se isso se fez. O curioso seria que o houvessem feito e houvessem novamente condenado a morte o Nazareno esse, que tanto tem dado o que fazer. A verdade é que em todo rigor deviam fazer isso; porque se chegassem a absolve-lo, teria que tornar-se todos cristãos; ou melhor dito, já o seriam.
Mas se o fizeram, o provável é que a sentença não seria nem guilty, nem non guilty; senão uma sentença de notproven ou out of legality: nulo por irregularidade de forma jurídica.
O processo de Cristo foi altamente ilegal.
O P. Luis de la Palma S. J. em sua clássica obra histórica sobre a paixão resenhou em uma página mestra as ilegalidades desse raivoso processo, que foi uma monstruosidade jurídica. O Sinédrio ou Tribunal Supremo se reuniu em um tempo pascal, algo que lhes estava vedada; se produziram testemunhos falsos e contraditórios; não houve testemunhas de defesa; não se deu ao réu um defensor; ao responder a uma pergunta do juiz, o acusado foi esbofeteado; se tomou uma resposta do réu como prova e o juiz se converteu em promotor; a resposta do Sinédrio não se deu por votação; se celebraram duas sessões no mesmo dia, sem a interrupção legal mandada entre a audiência e a sentença; o sentenciado foi diferido a autoridade romana, que não se reconhecia como legítima e que —como lhes advertiu o mesmo Pilatos— não tinha competência jurisdicional para delitos religiosos; a acusação promovida no Pretório ("Este se fez Deus e por isso deve morrer") não era delito nesse Tribunal; o réu foi açoitado, quer o começo da crucificação, antes da sentença ser prolatada; o delito de conspiração contra César, que promoveram depois, não era passível de crucificação, nem sequer de morte, como o era a sedição a mão armada e a traição ao exército imperial, coisas que manifestamente não fez Cristo; e finalmente deixando outras duas irregularidades menores, o néscio Plitados não proferiu a sentença oficial: Ibis ad crucem, senão que disse mal humorado: "Agarrem-nos vocês e façam o que quiserem ", coisa que um juiz não pode fazer, porque é abdicar seu oficio; depois de haver feito a fanfarrice de lavar as mãos como o que acreditava ficar de bem para com Deus, com os judeus e com sua mulher; e depois de haver proclamado publicamente a inocência do acusado: "Non invenio in eo culpam" ("Não encontro culpa nele"), o enviou ao patíbulo.
Não seu se esqueço algum coisa porque cito de memória; mas com a metade destas irregularidades o processo absolutamente nulo; e o juiz tinha o dever estrito de absolver ao acusado; fazer administrar quarenta menos um a Caifás pelos maus tratos que havia permitido infligir-lhe; e fazer varrer a golpe a turba com Barrabás e tudo mais, que ao pé da escola de mármore — não queriam pisar no pretório para não manchar-se e poder comer a páscoa, os anjinhos— bramavam como leões e toros ("Toros bravos me cercaram, livra-me da boca do leão", disse o Profeta), e atropelavam o decoro do Procônsul com ameaças absurdas. A único coisa que há que anotar-se quanto ao idiota Pilatos é que não recebeu nenhuma barganha —no se acordou— coisa que não se pode dizer de todos os juizes cristãos.
Mas ande se equivoca De La Palma é em atribuir aos fariseus todas estas falhas de "procedimento"; nesse caso não tem maldita. Se Cristo não era o que Ele dizia, havia que dar-lhe morte por cima de todo procedimento; e isso em virtude do sentimento religioso. Era um blasfemo; e por certo, o blasfemo mais extraordinário que existiu. Por isso, eles não tiveram reparos em des-responsabilizar Pilatos: "Que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos". isto era um juramento tremendo, que os latinos chamavam exsecración. Nisso se sentiam seguros: "Acreditavam —perversamente— fazer um obséquio a Deus". Se o Nazareno não era Deus; nem o pastor Eróstrato que incendiou o templo de Diana de Éfeso, nem Calígula que violou uma Vestal (virgem, pitonisa), nem Henrique II que fez matar a Santo Tomás Beckett em sua catedral e durante sua missa, cometeram uma blasfêmia e um sacrilégio comparável: "Réu é de morte; nós sabemos que é réu de morte; pouco importa o que lhe digamos a este romanacho incircunciso ...". Se a acusação de conspiração contra César e a subseguinte ameaça não houvesse surtido o apetecido efeito, pouco lhes houvera importado acusar a Cristo de haver três assassinos para matar Pilatos, sua mulher e seu filho.
Porque a questão em causa não era a sedição contra César —que eles desejavam com toda a alma, os hipócritas— nem se Cristo havia dito que ia destruir o Templo e reedifica-lo em três dias — que eles sabiam não Ter dito— nem nada desse estilo. A questão real era: Cristo é o que ele disse ou não? Esta é a questão mais tremenda que se a posto na história da humanidade: questão de vida ou morte.
Todavia se põe e se põe continuamente; e a prova são os homens judeus de Nova York. O processo de Cristo se reproduz continuamente na alma de cada homem: Cristo é acusado, da testemunho de si, depõem contra Ele falsos testemunhos, maus sacerdotes O julgam e condenam, Judas o beija, imundos lhe fazem chacotas, e muitos pilatinhos o crucificam. É a questão de um simplíssimo sim ou não que se produz no mais profundo da alma: "Sim, é Deus. Não, não é meu Deus". Se não é meu Deus, é réu de morte... ¡Que desapareça, que seja crucificado, que seja sepultado e lacrado seu cadáver e que não se saiba mais dele nem de sua memória!...". Tremendo pensamento.
Os cristãos cremos que a dispersão secular do povo judeu —que agora se está por terminar— é a resposta aquela exacração dos fariseus: "Caia seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos". Porque "sobre nossos filhos"? Não é justo isso? Aqui há um mistério. Na realidade, todo judeu que por sua culpa não se torna cristão, da sua aquiescência a condenação de Cristo; porque eles tem em suas mãos as escrituras com todas as profecias (a peça mestra do processo, o testemunho que não se chamou) e ninguém tão bem como eles pode entender desta causa. Dizer isto parece duro e tremendo; e na realidade é. Mas a questão é esta: ou foi Deus ou não foi Deus, e não há evasiva nem resposta intermediária possível. Ou blasfemo, ou meu Criador e Senhor.
Deixemos em paz os judeus se não é para rogar por eles, como roga a igreja na Sexta Feira Santa: demasiadamente hão sofrido. O mal é a Segunda crucificação de Cristo ("Rursum crucifigentes Filium Dei") que fazemos nós cristãos. Em minha própria vida tenho bastante que considerar; mas isso não para contar aqui. Mas na vida pública das nações chamadas cristãs, desde a Reforma até aqui, um largo e infausto Vía Crucis executa ao Corpo Místico de Cristo. Os Caifás, os Judas, os Pedros, os Herodes, os Pilatos se multiplicam; e todos os gestos daquela nefasta façanha se reproduzem simbolicamente: Ao Cristo se nega, se calunia, se impreca, se açoita e se crucifica. E se sepulta.
As nações parecem no caminho de crucificar novamente a Cristo; e de gritar ao céu: "que seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos".


"EL EVANGELIO DE JESUCRISTO", Bibliotaca Dictio, Vol 7, pag. 195, Buenos Aires, 1977

2 comentários:

Fábio Graa disse...

Amigo, o estou indicando para receber o prêmio "blog de ouro".
Dê uma olhada.

http://anjosdeadoracao.blogspot.com/2009/02/fiquei-muito-feliz-por-ter-o-blog-anjos.html

Ana Maria Nunes disse...

è por nada n, mas pq n tem identificação seu blog?
estranho.
Muito legal gostei dele.

Vou pegar essa postagem pode?

Salve Maria Santíssima!


Fernando Rodrigues Batista

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Fernando Rodrigues Batista
Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
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"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot