quarta-feira, 26 de março de 2008

O fascinante poema de Ulisses

(DEDICADO AOS LOUCOS SUBLIMES)

Para os que assistem de longe a batalha daqueles que se propuseram a sustentar de pé, contra todos os agentes destruidores, o edifício da Nacionalidade, é difícil, ou quase impossível compreender as angústias de todas as horas, que consomem os nervos e apertam o coração dos combatentes de ânimo firme e inflexível desígnio.
A consciência profunda das realidades aparentes e daquelas outras que, por serem ocultas, mais se fazem sentir nos efeitos visíveis dos aspectos sociais, coordenou em cada um dos lutadores as forças anímicas que se compõem no lineamento de uma atividade constante cujo exercício premune o espírito, isentado-o das enfermidades do desânimo, da desilusão e do ceticismo.. E esse é , por certo, o segredo da resistência, a chave do enigma, para tantos indecifrável, do homem que, apesar de todos os motivos de descrença e de revolta, consegue sustentar-se ereto na sua irredutível determinação.
Tudo, no quadro geral de um país que veio perdendo, dia a dia, a noção de seus destinos superiores e da sua dignidade histórica, e no ambiente universal de predomínio de um grosseiro materialismo que pretender ser o contraste de um outro materialismo o qual, pelo menos, desfralda uma bandeira idealista, tudo convida à demissão, à renúncia, ao abandono mais completo.
O lutador, empenhado em salvar um povo que não se quer salvar, sente, mil vezes, a tentação de recolher-se à delícia do ostracismo, atravessando o rio Lethes, o rio do Esquecimento, e mergulhando naquelas zonas crepusculares onde os prazeres lícitos e honestos anestesiam as faculdades do pensar e do sentir, do compreender e do temer, amortecendo a vontade e as energias criadoras.
Nessas horas de tédio e de amargura, configuram-se no pensamento do homem engajado na batalha por um Ideal Superior, as doces tranqüilidade dos Jardins de Epícuro, onde toda a dor é proscrita, ou a nobre serenidade de Academus, onde pairam as idéias e as controvérsias, como aves a contemplar, muito do alto, as misérias da terra. Doçuras amáveis de Tusculum, à cuja sombra do arvoredo, Plínio o Moço escrevia as sua cartas literárias e o Panagírico de Trajano; amenidades das Bucólicas de Virgílio, sob a proteção de Octávio, quer era o Poder, e de Mecenas, que era o Dinheiro; paz amável das bibliotecas monásticas, de cujo silêncio podem sair as páginas clássicas de Frei Luís de Souza; doçuras de imperturbáveis academicismos, onde a prosa de Anátole France se desenrola em planícies de mínima altitude, como um tapete de cores esbatidas... Tentação da vida de gabinete, da vida alheia à vida, da vida harmoniosa da ilha da Perfeição, onde Calipso tenta prender o destino tumultuoso de Ulisses.
Mas, à semelhança do herói de Itaca, a despreender-se dos argumentos da deusa dos Parques Perfeitos, quando o incita a viver para sempre entre as aléas, de cujas árvores não caia uma única folha, e junto às fontes que não conheciam a mácula dos enxurros, deslizando perpetuamente cristalinas, e a ouvir o canto daqueles pássaros desconhecedores da morte, também os lutadores penetrados pelas razões das grandes causas jamais se demitem da empresa a que se abalançaram.
Como Ulisses, trazem no fundo do coração a lembrança de Penelope, a esposa fiel que está sempre a esperar naquele Reino das Contingências Humanas, onde as árvores envelhecem, as fontes se turvam e os pássaros sofrem os rigores da invernia. E, assim como Ulisses foge da lha da Perfeição, também o homem que se dispôs a lutar no sentido do "humano" e, particularmente, no sentido da Pátria, rejeita a vida calma, o tédio das aposentadorias, o "ócio com dignidade" dos romanos, onde o espírito ardente e lutador não encontra senão indignidade.
Voltar a Itaca, é o pensamento de Ulisses. Volver à realidade dura da vida nacional, é o pensamento secreto do Lutador, quando a tentação o instiga a abdicar o cetro da sua grandeza, que é o sonho expressivo do seu altruísmo e do seu amor à Pátria.
O desânimo nunca chega a ser um colapso das energias criadoras; é apenas um instante de vertigem, em que, à maneira do Anteu (o gigante que refazia suas forças ao tocar a terra, na plenitude dos combates) o lutador da Nobre Causa rápido se recompõe para, mais lesto e firme, arremeter contra as potências do Mal.
E, assim, coo depois de tantas aventuras e desventuras, Ulisses consegue regressar a Itaca e encontrar Penelope, a esposa, e Telemaco, o filho, também os que batalham pela Pátria haverão de encontrá-la, como encontrarão a alma da Pátria (a fiel Penelope) e a flor do seu futuro, na continuação do tempo, isto é, as novas gerações, que são o Telemaco de todos os Ulisses...
Não faltaram conselhos à rainha de Itaca para que esquecesse do esposo, em cuja possibilidade de regresso ninguém de bom senso, queria acreditar. Só ela acreditava. E ele regressou. Não faltarão, também, graves anciãos, que se dizem sabedores das realidades políticas, a dizer aos ouvidos da alma da Pátria, que já lhe não é lícito esperar por um ideal que tudo indica haver soçobrado nas encapeladas ondas de um Mediterrâneo histórico, entre as fúrias dos Ciclopes do materialismo, as artimanhas de Circe, que é toda a demagogia corrente em nossos dias, e o mistério do país dos mortos, onde tudo é frialdade e indiferença.
Mas assim como uma tempestade atira Ulisses à praia de Feacios, encontrando o acolhimento de Náusicas e Alcino, que o reconduzem a Itaca, disfarçado em mendigo, também a furiosa tormenta, que já se forma nos horizontes da nossa Pátria, há de levar os que lutam por ela à praia dos acontecimentos inevitáveis da História.
Disfarçado em mendigo, ou seja, em peregrino implorativo, Ulisses encontra vários pretendentes à mão de Penelope. Eles disputam, com ambição mesquinha do Poder, a rainha por todos tida como viúva. Mas Ulisses dá-se a conhecer, a Telemaco, e há nisto um símbolo impressionante a assinalar a vida dos heróis: eles se revelam à juventude.
Sim; os heróis revelam-se à Mocidade, porque os velhos perderam inteiramente a memória e embotaram (à força de raciocinar e de agir segundo as regras frias da razão) as poderosas antenas intuitivas. Os velhos perderam a capacidade divinatória, o Dom das percepções íntimas e profundas e só aqueles que, como o centenário Simeão do Evangelho, conservam a juventude do Espírito, são capazes de reconhecer o que os seus contemporâneos não vislumbram.
Os pretendentes à mão da Rainha de Itaca são todos interesseiros; não os move nenhum amor, mas apenas a ambição do mando e os proventos que deveriam do governo. Mas Telemaco, desde o instante em que reconheceu Ulisses, de quem deveria ser continuador, é quem revela a Penelope a identidade do herói.
Por este motivo todos os que lutam, entre incompreensões e injustiças, entre indiferenças e despresos, amargando o desdém com que são olhados por uns e sofrendo o ódio com que são visados por outros, sabem que Telemaco, ou a Juventude, está viva e já os identificou e será ela quem os revelará, na hora extrema, os ouvidos da Pátria que os espera.
Esta certeza revigora a fibra dos batalhadores por um ideal de grandeza humana e de salvação nacional. E, então, todas as mesquinhesas dos seus coevos lhe parecem mais mesquinhas, não constituindo, por isso mesmo, empecilho aos seus objetivos.
É verdadeiramente comovedor esse fato que presenciamos todos os dias de homens paupérrimos, sem eira nem beira, darem as horas do seu justo descanso a um trabalho do qual, longe de auferir proventos, sofrem ônus e duros sacrifícios. Homens pobres que pagam para trabalhar em favor de uma ordem que materialmente lhes não aproveita, enquanto os ricos se entregam as suas exigências confortáveis, muitas vezes negando às necessidades mais prementes do serviço patriótico desenvolvido pelos que tudo sacrificam a bem da Nacionalidade, a mínima contribuição.
No meio desse espetáculo em que Voltaire encontraria centenas de Pangloss, argumentando leibnitzcamente e vivendo segundo as normas de Epícuro, agitam-se os pretendentes de Penelop, os ambiciosos do Poder, os sedentos de posições dinheirosas e cargos honoríficos, os charlatães à Cagliostro, os demagogos cheirosos a Jacobinagens, os êmulos de Catilina, a fauna prodigiosa dos pescadores de águas turvas.
Mas, apesar de tudo, aumenta, cresce na hora presente, a legião dos idealistas, dos heróis, dos que se sacrificam, dos que se martirizam, dos que não conhecem descanso nesta luta tremenda pela salvação da nossa Pátria.
O gelo da indiferença de muitos não lhes arrefece o ardor do entusiasmo; a incompreensão de outros, não os desanima no afã, cada vez mais vibrante, de bem servir a Nação; o desprezo que tantos lhes votam é tomado com o mesmo íntimo sorriso com que Ulisses, disfarçado em mendigo às portas dos moradores de Itaca, considerava a incapacidade de interpretação do seus motejadores; as injustiças de muitíssimos ainda, revestindo-se da formas das calúnias, das injúrias, dos sofismas de uma crítica malévola e pérfida, são recebidas pelos batalhadores com a corajosa tranqüilidade dos que marcham por aquela selva escura de que fala Dante, na qual se encontram espinhos, precipícios e feras, que é forçoso superar.
Por isso, a luminosa minoria que empunhou a bandeira do espiritualismo mais puro e sincero, prossegue aguardando o momento trágico de um futuro, cujas ameaças a mediocridade geral dos responsáveis não tem sabido conjurar.
E a pátria há de reconhecer os que a amam, como Penelope reconheceu Ulisses, levado à sua presença por Telemaco, a juventude radiosa que não faltará ao seu magnífico destino.

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Fernando Rodrigues Batista

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot