terça-feira, 4 de março de 2008

A comovente e heróica morte de um mártir. Como se deu o assassinato de Ramiro de Maeztu, em 7 de Novembro de 1936.

por María de Maeztu


Ramiro de Maeztu, mestre de Hispanidade, foi assassinado no infausto novembro de 1936. Sua irmã Maria recorre a seus pensamentos e sentimentos. Dom Ramiro morreu para que prevalecesse, em toda a plenitude, o sentido hispânico da vida, alcançado por ele ao termo de suas andanças intelectuais e daí por diante objeto de uma doutrinação constante e corajosa. Conhecia, e por experiência, a maldade dos homens, mas acreditava na possibilidade de fazê-los bons. RAMIRO DE MAEZTU: PRESENTE!


"Naquele instante dramático vejo com claridade, apesar de minha angústia que me confinava no silêncio, que ele já havia terminado de recorrer seu caminho de Damasco e que eu começava o meu, o caminho que sem ele haveria de recorrer infinitamente sozinha.. Até agora seu nome, o prestígio de sua rubrica, sua autoridade moral, me abriam todas as portas; por isso foi minha vida tão fácil. A hora da dor há chegado. A hora de afrontar sozinha, cara a cara, sem defesa e sem apoio, essa coisa terrível e magnifica que se chama verdade."A través das grades da prisão, nesse dia memorável, o homem que foi meu irmão, meu amigo, meu mestre, o companheiro no trabalho, o inspirador da emoção criadora, me entrega uma mensagem. Não vem escrito em palavras, mas está em seu olhar, na entonação de sua voz. É seu mandato que tem a força inalterável do que pede em silêncio na hora da morte.7 de Novembre de 1936._ Madri."No pátio da prisão os presos escutam os nomes que um miliciano pronuncia. Vão destacando-se os chamados. Um passo adiante e um ultimo olhar aos companheiros de cativeiro, aos que compartiram a angústia da espera do momento final."Então o carcereiro pronuncia seu nome. Queria pronuncia-lo, tentou, como se fosse um entre tantos. No entanto, sua voz, ao ressoar no âmbito da prisão, adquiriu alento de eternidade. O nome que pronuncia é já um nome histórico. Disse: Ramiro de Maeztu. Quis acrescentar um número, com que vai marcado - o sinal de ignominia - todo presidiário. Mas uma força sobrehumana deteve sua voz e o nome sai solitário, limpo, claro. É o nome que centenas de milhares de vezes reproduziram as colunas dos diários, dos melhores diários da Europa e da América, ao pé de um artículo de prosa perfeita no qual se enunciava uma verdade, uma inquietude, um anelo, uma profecia. É o nome de um homem que por manter-se sem medo e sem mácula, como o dos cavaleiros medievais, arriscou tudo e no momento decisivo foi visto, como a Verdade que defendeu, sozinho, definitivamente sozinho, abandonado. O nome de quantos hão de morrer se escuta no cárcere com idêntica emoção. Mas se agrega agora, neste caso, uma aureola de popularidade. É um nome conhecido por todos e até a Morte o conhece, pois falou e escreveu muito sobre ela: "todos os dias peço a Deus que me de alento para morrer com dignidade".

"Em 7 de Novembro de 1936, no pátio do cárcere de Madri, Ramiro de Maeztu, ao ser chamado, cravou seus joelhos na terra ante outro cativo. Era um sacerdote. Aproximou ele sua cabeça para fazer-lhe entrega de sua ultima confissão. O sacerdote, ante a gravidade da instancia, vendo que tinha a seus pés não um homem qualquer senão a um mártir que ha traspassado a fronteira do humano para ingressar na região onde moram os santos, fez um gesto com a mão indicando que seus pecados estavam perdoados porque amou muito e sofreu muito. Mas Ramiro, fiel ao rito da religião por cuja defesa dava sua vida, disse em voz clara e serena; "Padre, absolva-me...".

"E a gravidade dramática daquela hora, que os séculos cobrirão de glória e beleza, se tornou luminosa. Em seus olhos azuis, claros, profundos; naqueles olhos que haviam absorvido com deleite, nos anos de juventude, a beleza da vida; naqueles olhos através dos quais um dia cruzou a visão antecipada, certeira, segura, do que haveria de ser Espanha, brilhou como nunca uma labareda de fé. Lhe saltava o coração do peito, impaciente como o da criancinha quando tardam lhe conceder o que deseja. Teresa de Jesus, a Santa de Ávila, risonha, jovial, animosa, ia dando-lhe forças. E enquanto cruzava, de cabeça erguida e sereno, o corredor do cárcere, ia repetindo as imortais estrofes:

E tão alta vida espero

Que morro porque não morro.

"Apressou o passo, subiu na camioneta. A luz branca e fria do amanhecer de Madri iluminou como um refletor seu rosto antecipando a palidez da morte. Sua cabeça, sobre a luz tênue, levemente azulada, daquela aurora, não era já a cabeça de um homem de carne e osso: era a figura belíssima de uma escultura talhada por um escultor castelhano, para que possa ser elevada algum dia ao altar do templo onde mora Deus. Quem sabe? Talvez, ao altar do templo de São Miguel, em Vitoria, onde recebeu na pia batismal a água que desde vinte séculos limpa o homem do pecado original e lhe faz protagonista do drama de uma paixão _ padecimento perene _ que viverá com terrível angústia".

"Depois...o caminho, a parada, a curva final. Os milicianos que vão disparar contra ele se detém para acomodar com certeza o canhão que vai disparar a metralhadora. Lhe ordenam que avance contra um muro que dentro de alguns instantes quedará salpicado de sangue, do sangue de um homem que foi o que quis ser: um cavaleiro cristão. Já estão ali, nesse lugar para dar morte a um réu cujo único delito foi de haver amado infinitamente a seu Deus e a sua pátria, frente a frente, como nas horas mais gloriosa de Espanha, duas idéias, duas místicas, dois símbolos, duas manifestações de espírito a cujo enlace não se chegará nunca, nunca, porque entre eles não cabe harmonia possível. Uma é a idéia de afirmação e de amor cujo sentido consiste em elevar o homem. A outra é de negação que se propõem anular-lhe: é desumana".


"O instante final se aproxima. Dentro de alguns segundos a voz daquele homem - uma voz harmoniosa e varonil, grave e serena, terna e repousada, uma voz que adquiria maravilhoso acento patético, quando falava da dor e da morte, as duas grandes protagonistas da história - se apagará para sempre. No entanto, tem que dizer uma verdade, a última verdade, com que vai expressar na hora da morte o sentido da vida: "Vós não sabeis por que me matais! Eu sei por que morro: para que vossos filhos sejam melhores do que vós".

A luz do amanhecer detém seu curso e parece que, novamente, como na hora do Gólgota, descendem as sombras da noite. Estas sombras impedem ver a queda de seu corpo sobre a terra e permite supor que a alma iluminada pela fé teve um trânsito. E como não se conseguiu averiguar qual pedaço de terra serviu de leito a seus restos mortais, podemos afirmar que a Espanha inteira lhe serviu de sepulcro".

"A morte de um mártir é a verdadeira morte, porque conduz o homem a fronteira da vida na mais terrível solidão. Sozinho, abandonado, sem Ter uma mão amiga que fechasse seus olhos e cobrisse de flores seu corpo. Por ter sido morto na hora do triunfo, junto a seu cadáver, como antes junto de sua palavra, teria ido Espanha inteira: a Espanha que pensa e que sabe onde está sua salvação. Nesse amanhecer de 7 de Novembro de 1936 está sozinho, e para o cumulo da traição, seus verdugos se empenharam em negar sua morte. Só se sabe que desapareceu de sua cela no cárcere de Madri. "Onde está Maeztu?, perguntam as chancelarias da Europa e América. Onde está?, perguntam em Londres, as mulheres que lhe admirarão e escutarão sua palavra com deleite. Onde está Ramiro?, pergunta sua mãe, sua mulher, seu filho. Onde está o mestre?, perguntam os discípulos que foi deixando em sua passagem por este mundo. Onde está?, pergunta desde Buenos Aires seu grande amigo Ricardo Rojas, e desde Chile um de seus mais fiéis admiradores, Mario Garcés. Onde está o homem, o apóstolo, o profeta, o precursor?, pergunto eu. Que foi feito dele? Como e por que houve uma voz, uma só voz em Espanha que se levantara em sua defesa? Que fizeram os intelectuais, seus amigos da juventude, seus companheiros de trabalho, que não pronunciaram uma só palavra para salvar a vida um homem bom? E quando a imprecação surge terrível, desesperada, ouço uma voz clara que, em nome de Deus, contesta: Não, Ramiro de Maeztu não morreu porque ingressou no reino da imortalidade"·

2 comentários:

Nito disse...

oh loco fernando tu ainda ta com essas ideias nacionalistas??? o.O
e o inter cara , campeao do mundo porra!!!

Cearánews! disse...

Salve,

estava lendo seus textos. Bacana.


Fernando Rodrigues Batista

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.
"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot