terça-feira, 29 de julho de 2008

Indispensáveis bispos ...

Pbro. Christian Bouchacourt. (Fraternidade Sacerdotal São Pio X)


«Já faz ao redor de cinqüenta anos que a quase totalidade dos países católicos renunciaram a sê-lo. Todos feridos do mesmo mal –do ateísmo e do laicismo– e perturbados pela desordem social e econômica que nenhum remédio parece conseguir curar. A isso se acrescenta uma terrível decadência moral que vai sendo imposta pelos adversários da Igreja, com mais ou menos êxito conforme o grau de resistência que encontram. Em certas ocasiões, alguns projetos como o aborto, o controle de natalidade, a legalização da homossexualidade e a educação sexual nas escolas não entram em vigor imediatamente pela coragem de certos bispos e políticos; mas, curiosamente, tais projetos nunca são deixados de lado. Os inimigos da Igreja e da Cristandade jogam com o tempo. Sabem que as suas idéias serão impostas mais cedo ou mais tarde, atrasando-as eficazmente e difundindo-as pelos meios de comunicação que eles controlam de modo quase exclusivo.Durante esses cinqüenta últimos anos fizeram-se, em alguns países, tentativas de salvar a sociedade católica; no entanto, elas não tiveram efeitos duráveis. Existe algo assim como uma maldição que parece esterilizar todos os movimentos de restauração católica, ao mesmo tempo em que os adversários navegam sempre com bons ventos. A que se deve isso?Numerosos são os leigos católicos que abandonam o combate, vencidos por repetidos fracassos. Enfim, alguns crêem que já não há nada a fazer senão esperar que venham "os acontecimentos" iminentes anunciados por aparições mais ou menos duvidosas. No entanto, nada vem… Pelo contrário, a decadência religiosa, econômica e social continua acelerando-se. Até onde chegarão os inimigos da Igreja? Como conseguem coroar com tanto sucesso seus funestos projetos?A mesma Igreja está marcada por este sintoma de autodestruição. Por quê? A crise que Ela atravessa tem um lado misterioso, como o teve a Paixão de N. Senhor Jesus Cristo. Pois bem, podem-se apontar com certeza as autoridades culpáveis da morte de Cristo: os chefes dos sacerdotes judeus. Apertaram as mãos das autoridades políticas para condenar o Salvador e eliminar a influencia extraordinária que Ele exercia sobre a multidão, da qual estavam invejosos. São estas autoridades religiosas judias as que levaram Cristo diante dos tribunais civis e conseguiram sua condenação e morte.Hoje vemos este mesmo concubinato das autoridades religiosas com os dirigentes políticos condenar à morte a sociedade católica. Os papas e os bispos nomeados por eles, impregnados de modernismo e liberalismo desde João XXIII, são os principais responsáveis de uma desintegração da sociedade católica que parece inevitável. Durante o último concílio pensaram ser possível fazer católicos os princípios da Revolução Francesa, tal como o afirmará o próprio Cardeal Ratzinger. É como querer batizar o diabo … Esta união contra natura da Igreja e da Revolução é a causa dos males que abrumam a Igreja e a sociedade civil. Estes princípios preparados nas lojas maçônicas são os que fizeram entrar "a fumaça de satanás" na Igreja e mataram a alma das sociedades católicas.Não faz muito tempo um bispo que me recebeu no seu escritório confessou que tivera problemas para aplicar algumas reformas e aceitar alguns textos do último concílio. No entanto me disse: "seguindo o Papa, estava seguro de estar na verdade. Por tanto, aceitei tudo". Com princípios semelhantes, São Paulo não deveria ter resistido a São Pedro e, nesse caso, todos os batizados ainda estaríamos submetidos à circuncisão e às praticas da religião judaica! Santo Atanásio também não deveria ter combatido a heresia ariana, nem deveria ter sido canonizado, apesar da oposição ao Papa. Ao escutar estas objeções, o bispo respirou fundo e conduziu a conversa a outros assuntos…A Igreja e a sociedade padecem da caída dos bispos que já não têm coragem de ensinar a sã doutrina nem de denunciar o erro. Para muitos, o restabelecimento do reinado social de N. Senhor é um ideal envelhecido ou inalcançável. Por isso louvam o pluralismo religioso na sociedade e o exigem, recusando todo estatuto especial para a Igreja. Queria comparar os dois textos que seguem, pois sua comparação vale mais do que uma longa explicação.

O primeiro é de São Pio X e diz assim:

"Apoiar-se no princípio fundamental de que o Estado não deve cuidar de modo algum da Religião, implica numa grande injúria a Deus (…) Em segundo lugar, a tese de que falamos constitui uma verdadeira negação da ordem sobrenatural (…) Em terceiro lugar, esta tese nega a ordem da vida humana sabiamente estabelecida por Deus, ordem que exige uma verdadeira concórdia entre as duas sociedades, a religiosa e a civil (…). Finalmente, esta tese infringe um dano gravíssimo ao próprio Estado, porque este não pode prosperar nem conseguir estabilidade prolongada se despreza a Religião, que é a regra e mestra suprema do homem para conservar religiosamente os direitos e obrigações." (1)

O segundo texto é do Cardeal Levada:

"Graças às Constituições dos Estados Unidos, viemos à vida num país que nos garante o direito natural à liberdade religiosa. Todos temos o direito de professar nossa fé de acordo com a nossa consciência. A proibição de que o governo professe uma religião particular lhe impediu de adotar uma atitude ‘desinteressada’ frente a todas as religiões (…) A Igreja, com efeito, reconhece e comparte com entusiasmo a proibição constitucional de reconhecer uma religião do Estado ou de impedir o seu livre exercício". (2)

Não lhes parece que este último texto está em total ruptura com o ensinamento tradicional da Igreja? Provém de quem hoje é Cardeal da Santa Igreja e foi elevado ao cargo de Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé! O Papa Bento XVI, ao voltar faz algumas semanas de uma viagem pelos EUA, retomou quase literalmente estas considerações. Estes são os princípios que condenaram à morte a Cristandade e fizeram vã qualquer tentativa de restauração católica desde faz muitíssimos anos. A Igreja precisa contar com bispos integralmente católicos que ensinem o mesmo que Gregório XVI, de Pio IX, de Leão XIII, de São Pio X, ou de Pio XII, que a iluminaram com os seus ensinamentos. Estes Papas souberam professar a verdade e denunciar o erro. A Igreja e a sociedade civil precisam de doutores da fé que sejam ardentes, que estejam convencidos de que a Tradição católica não é algo caduco. Dói-nos comprovar que não há nenhum bispo em exercício que tenha lucidez sobre as origens da crise que sofremos. Nenhum aceita ter um juízo crítico sobre os textos do último concílio – ecumenismo, liberdade religiosa, colegialidade – que estão em ruptura com a Tradição. Nenhum quer regressar oficial e habitualmente à Missa tradicional e aos sacramentos que santificaram gerações e gerações de católicos.Pedimos aos bispos que nos falem do "Deus que se fez homem" e sobre a sua doutrina salvífica, e não do "homem que se fez deus" como acontece com tanta freqüência.

Pedimos com urgência que iluminem as nossas inteligências e fortaleçam a nossa vontade, ajudando-nos a amar a Deus e segui-Lo. Basta já de exaltar a consciência humana livre de toda atadura superior!E foi unicamente porque nenhum bispo se conformava a este papel sublime, que faz 20 anos Dom Marcel Lefebvre sagrou quatro bispos, desejando suprir assim a estas trágicas deficiências. Não queria deixar-nos órfãos depois de sua morte. E essa foi a que assim se chamou "Operação Sobrevivência" (3), a qual resgatou o sacerdócio e a Tradição católica. Onde estaríamos hoje em dia se este ato providencial não houvesse tido lugar? Nosso fundador, no dia 30 de julho de 1988, realizou um ato heróico de caridade consagrando quatro bispos e sacrificando assim sua reputação pelo bem das almas e da Igreja.Faz já 20 anos que vemos, certamente, alguns avanços positivos como o Motu proprio; mas nos fatos, a situação continua sem mudanças e o erro se fez mais sutil do que nunca… Em julho passado, por ocasião das ordenações sacerdotais administradas aos seminaristas da Fraternidade São Pedro, o Cardeal Castrillón Hoyos exortou no seu sermão aos sacerdotes a concelebrar com seu bispo "ao menos na Missa crismal e quantas vezes isso seja conveniente para manifestar a plena comunhão eclesial". Nessa mesma linha, faz algumas semanas a Fraternidade São Pedro recebeu uma paróquia pessoal em Roma, mas teve que aceitar em troca que um sacerdote diocesano celebrasse todos os domingos uma Missa nova. Vinte anos atrás o Cardeal Ratzinger exigia como condição a Dom Lefebvre que todos os domingos se celebrasse a Missa de Paulo VI em Saint-Nicolas-du Chardonnet em Paris. Não… a situação não mudou essencialmente depois dessas duas décadas… O Vaticano II continua intocável. Como pode pretender-se que tenhamos confiança diante de fatos que falam por si só? A Fraternidade São Pio X, juntamente com outras congregações tradicionais, é a única que grita as verdades a toda voz e denuncia os erros. Todos os que assinaram um acordo com Roma tiveram que se calar e são inoperantes em ordem à restauração da Tradição. Essa, e não outra, é a triste realidade!Queridos fiéis, o estado de necessidade continua existindo hoje ainda maior; e mais do que nunca temos a necessidade de contar com os quatro bispos auxiliares da Fraternidade São Pio X para fortalecer-nos na Fé e santificar-nos. Que Deus os fortaleça. Demos-lhes nossos sinceros agradecimentos pela sua constante entrega por nossas almas. Retribuamos-lhes com nossas orações.

Rezemos e façamos penitência pela Igreja e pelo Papa. Supliquemos a Deus que converta os bispos do mundo inteiro para que recuperem e façam valer suas vozes. Disso depende a salvação de milhões de almas e o êxito de toda a restauração católica. Que Deus os abençoe!»

(1) "Vehementer nos", 11 de fevereiro de 1906.(2) Cardeal William Levada: Reflexões sobre o papel dos católicos na vida política e recepção da sagrada comunhão, 13 de julho de 2004.(3) Dom Marcel Lefebvre, sermão das sagrações episcopais, 30 de julho de 1988.

Cristianismo e Comunismo

Marcel de Corte

[...]
Nesta ocasião, gostaria de examinar [a coalizão de alguns católicos com os comunistas] sob o aspecto mais central e, por assim dizer, do interior da oficina onde destilam os seus venenos. Já disse uma vez que inúmeros clérigos e laicos cristãos estavam sendo empurrados implacavelmente para as garras poderosas dos comunistas, por conta de equivocadas convicções hiperdemocráticas. É preciso insistir nesta idéia.
Tudo é cristão, inclusive o erro. Isso não é um paradoxo. O gênio do cristianismo é tão universal, tão penetrante, tão radical que impregna tudo quanto existe. Desde o nascimento do Cristo, nada há no homem que não seja afetado por um coeficiente religioso. Doravante, qualquer verdade possui um aspecto religioso. O desvio da verdade, o sofisma, a aberração – tudo se matiza duma tonalidade religiosa. Não existe outra possibilidade para a manifestação do erro, senão sob a forma de heresia.
Eis aí um mistério, e dos grandes. Mas sem ele, a história da humanidade, depois do Cristo, é com certeza ininteligível. Sem ele, não há história, conforme a terrível expressão de Shakespeare: "uma história louca, cheia de ruído e tempestade, contada por um idiota". Se tem sentido a história, inclusive nas desordens e nas quedas, este sentido só pode ser cristão. Cada vez que tentamos chegar ao fundo da história, encostamos a mão na presença irredutível e ubíqua do cristianismo sob a forma ortodoxa ou herética. O Cristo é o eixo único da história.
Particularmente, no plano social, desde o Advento, a desordem e o desmazelo sempre se traduziram sob a forma de heresia. Na Idade Média, não houve investida contra a ordem social que se não constituísse ao mesmo tempo em heresia cristã. É típico o caso dos albigenses, não menos que o do protestantismo no raiar dos tempos modernos. Quanto à Revolução Francesa, ninguém melhor que Michelet percebeu seu caráter herético. Exprimiu-o numa frase lapidar: "A revolução continua o cristianismo, e o contradiz. Ela é, ao mesmo tempo, sua herdeira e adversária".
A definição da heresia se origina no seio do cristianismo, para combatê-lo. Como escrevia, já faz muito tempo, Maritain, "as idéias revolucionárias são corrupções das idéias cristãs", e "o fermento divino corrompido é necessariamente um agente de subversão com poderes incalculáveis".
Os nossos pais eram mui sensíveis aos conflitos, na medida em que ainda viviam na cristandade: eles observavam os atentados contra a ordem social transformarem-se automaticamente em heresia, visto que o cristianismo embebia a sociedade e suas instituições. Não condenavam a desordem apenas como contrária à natureza das coisas, mas enquanto oposta à ortodoxia cristã e à vontade divina.
Atualmente, isso não acontece: o cristianismo sobreviveu, mas a cristandade repousa sobre destroços cada vez mais disjuntos e tênues. Inúmeros cristãos não sentem mais os erros políticos e sociais como heresias cristãs hostis à fé. Vivendo numa sociedade descristianizada, são incapazes de perceber que as violências que se exercem contra a sociedade são heresias inimigas de sua crença. Despojados dos critérios de apreciação à uma só vez sociais e cristãos, estão entregues ao julgamento próprio e à sensibilidade particular. Quando se está aí, uma pessoa pode sustentar, sem a menor preocupação de coerência interior, que é permitido ser cristão e comunista.
Os católicos de quem falei, padres e laicos, estão precisamente neste caso. São, por sua vez, ortodoxos e heréticos. A despeito de seus clamores de indignação, é dever dizê-lo e redizê-lo.
Eles tornam-se hermafroditas, à proporção que os constrangem as convicções democráticas. Como todo sistema político, submete-se a democracia à lei da degenerescência. A monarquia decadente se torna tirania. A aristocracia, em seu declínio, se transforma em oligarquia. A democracia, em que cada cidadão se pronuncia segundo sua competência real, reduz-se a um regime que não tem nome em língua alguma, reinando a ignorância mais profunda do bem comum. À medida que a democracia se espalha, os problemas sociais e políticos tornam-se mais complexos, árduos e difíceis de se resolver. Extrapolando, a democracia universal exigiria uma inteligência universal. Outrora restrita à experiência efetiva e possível das pequenas repúblicas comunais ou regionais onde estavam enraizadas, a democracia distancia-se mais e mais dos fatos concretos, suprindo o desconhecimento com o mito e a fé. Construções arbitrárias, imaginárias e abstratas substituem a apreciação segura e precisa da realidade. Tudo indica que a democracia evolui para essa direção. As almas que aderem sem reticências a tal sistema degenerado se evadem para o irreal, e tornam-se insensíveis às armadilhas que a natureza dos fatos ofendidos arma sob seus pés. São semelhantes aos cegos que se libram apenas na exaltação interior; eles vão adiante sem duvidar, sequer um pouco, que a realidade os contradiz.
Ainda que o comunismo e o marxismo lhes apareçam com as verdadeiras cores, i. é, como heresias cristãs que nenhuma cristandade, tão inexperiente quanto seja, poderia dissimular, não obstante constituem-se eles em atrativos para os cristãos, como a realização integral do generoso sonho democrático que os incha. Eis enfim o sonho encarnado! Não estão preocupados, se se trata duma mentira. São incapazes de enxergar. O irrealismo impede-os de julgar a árvore pelos frutos: somente as flores postiças, artificialmente perfumadas de democracia, lhes cativam a miopia e a ausência de faro.
Em suma, a ilusão democrática embotou-lhes o senso do cristão e do herético, do bem e do mal, do justo e do injusto, do conveniente e do inconveniente, do belo e do feio, que busca o contato assíduo com a realidade que os diferencia.
A falta de discernimento, resultado duma inteligência amputada das benesses da experiência, é grave. Por todo lado, ela nos acossa. Infelizmente, podemos amiúde contemplar o espetáculo ridículo de padres ou religiosos, sem procuração para tanto, que se ocupam do que não conhecem, nem têm experiência. Um fala sobre a vida íntima no casamento. Outro disserta acerca da administração como se fosse um grande industrial. Outro ainda exalta a arte que se vende nos arredores da igreja de São Sulpício, ou a arte moderna, do alto duma sensibilidade estética embotada ou deformada. Outros enfim tecem questionamentos políticos ou econômicos imbuídos de pathos ou retórica.
Maus cozinheiros, diria Platão, que cortam a torto e a direito a ave! Os "cristãos progressistas" levam essa depravação espiritual ao cúmulo. Quando vejo um padre caminhar por uma estrada junto com o camarada Duclós ou bradar numa manifestação comunista, afirmo que é uma estupidez e que o povo mesmo percebe vagamente o gesto como uma estupidez. A Igreja e o que sobrou da cristandade só tem a perder.
Concluindo, o dito de Chesterton acerca do mundo atual, repleto de verdades cristãs tornadas loucas, aplicar-se-iam à perfeição a certos cristãos.


Sábado, 13 de dezembro de 1952, La Libre Belgique

O Anti-Cristo

Pe. Leonardo Castellani


"... porque o Homem do Pecado tolerará e se aproveitará de um cristianismo adulterado...Imporá por todas as partes o reino da iniqüidade e da mentira, o governo puramente exterior e tirânico, a "Liberdade" desenfreada dos prazeres e diversões, a exploração do homem; e seu modo de proceder hipócrita e sem misericórdia. Haverá em seu Reino uma estrondosa alegria falsa e exterior, cobrindo o mais profundo desespero. Em seu tempo acontecerão os mais estranhos distúrbios cósmicos, como se os elementos se houvessem revoltado. A humanidade estará numa grande expectativa e reinará grande confusão e dissipação entre os homens. Rompidos os laços de família, de amizade, de lealdade e bom relacionamento, os homens não poderão confiar em ninguém, e correrá no mundo como um tremor frio, um universal e ímpio "salve-se quem puder". Será atropelado o que há de mais sagrado e nenhuma palavra terá mais fé, nem pacto algum terá vigor, senão pela força. A caridade heróica de alguns fiéis, transformada em amizade até a morte, manterá no mundo ilhotas de fé; porém mesmo ali, ela estará continuamente ameaçada pela traição e pela espionagem. Ser virtuoso será um castigo em si mesmo e como uma espécie de suicídio".

CASTELLANI, Leonardo, Los Papeles de Benjamin Benavides, Buenos Aires: 1953, Caderno 4, cap. 2.

Declaração

Pe. Calmel

Eu conservo a MISSA TRADICIONAL, aquela que foi codificada, não fabricada, por São Pio V. no século XVI, conforme um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ORDO MISSAE de Paulo VI.
Por quê? Porque na realidade, este Ordo Missae não existe. O que existe é uma Revolução litúrgica universal e permanente, patrocinada ou desejada pelo Papa atual, e que se reveste, momentaneamente, da máscara de Ordo Missae de 3 de abril de 1969. É direito de todo e qualquer padre recusar-se a vestir a máscara desta Revolução litúrgica. Julgo ser meu dever de padre recusar celebrar a Missa num rito equívoco.
Se aceitamos este rito, que favorece a confusão entre a Missa católica e a Ceia protestante — como o dizem de maneira equivalente dois cardeais e como o demonstram sólidas análises teológicas — então cairemos sem tardar de uma Missa ambivalente (corno de fato o reconhece um pastor protestante) numa missa totalmente herética e portanto nula. Iniciada pelo Papa, depois abandonada por ele às igrejas nacionais, a reforma revolucionária da Missa seguirá sua marcha acelerada para o precipício. Como aceitar ser cúmplice?
Perguntar-me-iam: Mantendo a Missa de sempre, em oposição a todos e contra todos, o senhor refletiu a que se expõe? Sim. Eu me exponho, se assim posso dizer, a perseverar no caminho da fidelidade a meu sacerdócio, e, portanto, prestar ao Sumo Sacerdote, nosso Supremo Juiz, o humilde testemunho de meu oficio de padre. Exponho-me a dar segurança aos fiéis desamparados, tentados de cepticismo ou de desespero. De fato, todo e qualquer padre que conserve o rito da Missa codificado por São Pio V, o grande Papa dominicano da Contra-reforma, permitirá aos fiéis participar do Santo Sacrifício sem equívoco possível; comungar, sem risco de ser enganado, o Verbo de Deus Encarnado e imolado, tornado realmente presente sob as sagradas espécies. Aliás, o padre que se submete ao novo rito, inteiramente forjado por Paulo VI, colabora, de sua parte, para instaurar progressivamente urna Missa falsa, em que a presença de Cristo já não será real, mas transformada num memorial vazio; e por isso mesmo o Sacrifício da Cruz já não será real e sacramentalmente oferecido a Deus; enfim, a comunhão não passará de uma ceia religiosa em que se comerá um pouco de pão e se beberá um pouco de vinho; nada mais do que isso; como entre os protestantes.
Não consentir em colaborar para a instauração revolucionária de uma missa equívoca, orientada para a destruição da Missa, será entregar-se a certas desventuras temporais, e certas desgraças neste mundo? O Senhor o sabe, e Sua graça basta. Na verdade, a graça do Coração de Jesus, que chega até nós pelo Santo Sacrifício e pelos Sacramentos, sempre é suficiente. É por isso que Nosso Senhor nos diz tão tranqüilamente: "Aquele que perder a sua vida neste mundo por minha causa, salva-la-á na vida eterna".
Reconheço sem nenhuma hesitação a autoridade do Santo Padre. Afirmo, no entanto, que qualquer Papa, no exercício de sua autoridade, pode cometer abusos de autoridade. Sustento que Paulo VI comete um abuso de autoridade de gravidade excepcional quando constrói um rito novo da Missa baseado numa definição de Missa que deixou de ser católica. "A Missa", escreve ele em seu Ordo Missae, "é a reunião do povo de Deus, presidida por um sacerdote, para celebrar o memorial do Senhor". Esta definição insidiosa omite propositadamente aquilo que faz católica a Missa católica, sempre irredutível à ceia protestante. Porque na Missa católica não se trata de um memorial qualquer, o memorial é de tal natureza, que contém realmente o Sacrifício da Cruz, porque o Corpo e o Sangue de Cristo se tornam realmente presentes por virtude da dupla consagração. Isto aparece, de modo a não permitir engano, no rito codificado por São Pio V; mas aparece flutuante e equívoco no rito fabricado por Paulo VI.
Da mesma maneira, na Missa católica o padre não exerce uma simples presidência; marcado com um caráter divino que o põe à parte por toda a eternidade, ele é o ministro de Cristo que, por si mesmo, realiza a Missa; é inadmissível que o padre seja assemelhado a um pastor qualquer, delegado dos fiéis para liderar sua assembléia. O que é perfeitamente evidente no rito da Missa ordenado por São Pio V torna-se dissimulado, senão escamoteado, no novo rito.
Portanto, não só a simples honestidade mas infinitamente mais: a honra sacerdotal, exigem de mim não ter a impudência de traficar a Missa católica, recebida no dia de minha ordenação. E porque se trata de ser leal, e principalmente em matéria de gravidade divina, não há autoridade no mundo, ainda que seja a autoridade pontifícia, que mo possa impedir.
Outrossim, a primeira prova de fidelidade e de amor que o padre deve dar a Deus e aos homens é guardar intacto o depósito infinitamente precioso que lhe foi confiado quando o bispo lhe impôs as mãos. É primeiramente sobre esta prova de fidelidade e de amor que serei julgado pelo Supremo Juiz.
Espero, com toda a confiança, da Virgem Maria, Mãe do Sumo Sacerdote, que me conceda permanecer fiel até à morte à Missa católica, verdadeira e sem equívoco.
Tuus sum ego, salvum me fac.


Pe. R.-TH. Calmel, O.P.


Pe. Calmel morreu em 1975, fiel à Missa de sempre, rejeitando com toda a alma a Missa nova de Paulo VI.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O Carlismo e o Pluralismo Religioso

Juan María Bordaberry

Juan María Bordaberry, insigne Presidente do Uruguai no período mais difícil de sua historia (1972-1976), aos seus 78 anos de idade, mesmo tendo a causa Ter sido considerada prescrita, em total desrespeito aos prazos processuais e a segurança jurídica foi "processado" (lá é como cá, o velho ressentimento esquerdista, e ainda, maçônico) dia 16 de novembro de 2006 pela suposta prática de homicídios de legisladores da esquerda radical - em conivência por tanto com os terroristas que assolaram o país nas décadas de sessenta e setenta- ocorridos na Argentina (mesmo não tendo o caso sido esclarecido pela justiça deste país) em maio de 1976.
Sua única "culpa" foi ter desbaratado os planos dos terroristas "tupamaros" e seus cúmplices. E mais ainda, haver querido instaurar um regime (no qual tinha pensado submeter a vontade popular) que prescindisse dos partidos políticos e os substituiria por "correntes de opinião" em tudo de acordo com os princípios cristãos da ordem política.
Cremos no entanto, que o real motivo de sua prisão decorre de sua oposição e ataque a Franco-maçonaria. Maçonaria que em sua teses, estaria implicada nos mais importantes acontecimentos vividos pelo país desde sua fundação, incluindo os que viveu em sua condição de primeiro mandatário.
O processamento e a conseqüente prisão de Juan María Bordaberry foi precedido de um linchamento mediático, perpetrado pela imprensa esquerdista e em alguns casos também pela que se pode dizer de "direita" e de manifestações de integrantes do governo favoráveis a um pronunciamento nesse sentido.
Quando se soube da detenção, todos os ex-Presidentes da República e o então Presidente da República Tabaré Vázquez, se encontravam presentes em um evento da B' nai B' rith, loja maçônica judia. Na saída, o último dos citados, com um sorriso irônico, respondeu a repórter que lhe dava conhecimento do fato o qual se limitou a dizer "falou a justiça".
Uma bela entrevista com Juan María Bordaberry pode ser vista no site: http://www.panodigital.com/cronicas_de_nuestro_tiempo/entrevista_a_juan_maria_bordaberry_prisionero_politico_0

O Concílio Vaticano II, proclamou, direta ou indiretamente, três princípios: a liberdade religiosa (de consciência), a colegialização no governo da Igreja e o ecumenismo. Não sou o único que lê estes três princípios assim: liberdade, igualdade e fraternidade. Católicos eminentes, com autoridade que eu não posso pretender ter, também tem interpretado essa forma.
Com a liberdade de consciência a Igreja perdeu seu impulso missionário, a vocação de consagrar a vida a propagação da fé e abriu as portas para a tolerância do erro.
Hoje nos dizem que todos os excessos que vemos com tanta freqüência, na doutrina, na liturgia, na palavra e ainda na conduta de sacerdotes, são conseqüência de una interpretação errada dos textos conciliares. Não é assim: ao debilitamento da autoridade da Verdade segue inevitavelmente o crescimento da soberba do homem que começa a escolher seus próprios caminhos. E si a isto agregamos a substituição da organizacional piramidal e monárquica que N. S. Jesus Cristo deu a Sua Igreja pela desagregação funcional e até geográfica da nova organização conciliar, nada mais natural que ocorramos os excessos e que ninguém possa impedi-los nem menos impedir o dano que acarreta aos fiéis. Estes excessos vêm ocultando a condição sobrenatural da Igreja, hão temporalizado seu papel a favor de uma figura mais filantrópica que espiritual e religiosa.
"A fumaça de Satanás entrou na Igreja" disse o Papa Paulo VI ao cabo de sua vida, queira a misericórdia de Deus que arrependido da obra da qual foi o mais ativo protagonista. Com o Concilio, o liberalismo chegou ao poder temporal do último bastião que lhe era oposto por definição, e Roma começou a aceitar as formas políticas que ele consagra. Assim, quando chegam as instancias eleitorais, os sacerdotes e os bispos recomendam eleger bem os candidatos, não votando naqueles que, por exemplo, são partidários do aborto ou das uniões aberrantes entre pessoas do mesmo sexo (nota: não estamos tão certos disso, ao menos no que se refere ao Brasil). Mas não se vai mais adiante, como declara o "Syllabus", a condenar a ordem política liberal por si, por consagrar a substituição da Soberania de Deus pela soberania do homem, ao ato eleitoral mesmo por constituir a expressão dessa pretendida soberania que pretende ocupar o lugar de Deus.
Um inolvidável sacerdote da Fraternidade São Pio X que tivemos a benção de Ter entre nós, aqui em Montevidéu, pela força dos fatos somente esporadicamente, insistia em que, pela Graça, a Fé se manifesta internamente em nós sobre a forma íntima da adesão de nossa inteligência as verdades reveladas por N. S. Jesus Cristo e ensinadas pelo magistério da Igreja, e externamente por nossos atos visíveis quando eles dão testemunho de nossa Fé. Assim, quando oramos publicamente, quando constituímos de forma cristã nossa família, quando, em fim, com nossas obras damos testemunho externo da Fé que professamos em nosso interior. Negar este desdobramento, por assim dizer, interno e externo de nossa fé, nos conduz insensivelmente a heresia luterana. Parece então que não condiz com nossa conduta de católicos dar um testemunho contraditório com nossa Fé interior, participando publicamente em instituições políticas atéias que tem feito cair por terra as tradicionais sociedades cristãs, legitimando com nossos atos o que é de per si condenável.
Um pouco antes das desditas eleições espanholas de março de 2004, pude ver na página da Internet do Foro Santo Tomás Moro da Comunhão Tradicionalista Carlista, assim como em outras, divergências entre carlistas acerca da participação ou não nas mencionada eleição, sem que se rechaçasse as eleições em si mesmas, como ato contrario aos princípios cristãos. Estas divergências se evocam agora e com maior dureza com motivo do surgimento do novo partido chamado "Alternativa Espanhola" sem que ninguém advirta, para começar, que a própria expressão "partido" contradiz a vigência insubstituível do principio de autoridade fundado no direito natural, que não pode admitir a hipótese de uma derrota numérica.
O que me atrai do carlismo e me leva a defende-lo e tratar de difundi-lo dentro de nossas pequenas possibilidades é precisamente sua Santa Intransigência na proclamação e defesa dos princípios fundadores da Espanha e por conseqüência, da Hispanidade toda.
A historia da Espanha é pródiga em exemplos da necessidade de defender a Fé intransigentemente, sem fissuras nem resquícios nem concessões. Nega a Hispanidade, na qual orgulhosamente me incluo, a aceitação do moderno conceito ateu de pluralismo. Una fides, unum regnum proclamou o Concilio III de Toledo há mais de quatorze séculos, e esse preceito —que regeu sua historia durante quase todo esse tempo— deu a Espanha um caráter próprio, único e distintivo que, torna difícil de explicar e entender por quem não a conhece e, nos obriga a trabalhar para restaurar seus valores históricos por inteiro e projeta-los para fora e não deixarmo-nos invadir por aquilo que é distante e contrário a natureza hispânica.
"É indigno que um príncipe de fé ortodoxa tenha sobre seu cetro a súbditos sacrílegos", reafirmou logo o Concilio Toledano VIII. Estes preceitos foram o fundamento da obrigação dos Reis Católicos, como tais, de não aceitar moros nem judeus não conversos na Espanha. Não foi nem conveniência mesquinha nem maldade: foi a vigência da Fé Católica que fez grande a Espanha.
Tampouco foi cruel: a grande Isabel deu a todos a oportunidade de converter-se o se debandar para outra parte levando sua família e seus bens, para o que dispôs até barcos a sua disposição e inclusive aceitou comprar generosamente seus bens. Milhares de judeus convertidos ficaram na Espanha e contribuíram em escrever a história de sua grandeza. Vale a pena ler as admiráveis páginas que Dom Luis Suárez Fernández escreveu a respeito. Isabel, católica, bondosa, reta e justa, não fez senão cumprir sem concessões o principio cristão, o que lhe granjeou o ódio da heresia, que ainda perdura nas lendas negras. Participar das instituições liberais, cara a cara com os inimigos de Deus, é aceitar o pluralismo e negar implicitamente a obra de unidade católica e política de Fernando e Isabel.
Ainda que as guerras carlistas se iniciam pela questão dinástica originada pela decisão de Fernando VII que impediu o acesso ao trono do infante D. Carlos Isidoro, que houvera sido Carlos V, seria burrice pensar que todo termina nessa questão nessa questão. O carlismo advertiu desde muito cedo que negar o trono a um Rei tradicionalista e deixar a Coroa nas mãos de uma pequena representada pela Jovem Regente era abrir a porta ao liberalismo e obstar a continuidade da vigência dos princípios: Deus, Pátria, Fueros e Rei. Se o "alzamiento" houvesse respondido somente a questão dinástica o carlismo não haveria mantido sua vigência até nossos dias havendo sido, ademais, derrotado nos campos de batalha.
Espanha pois, se nega obcecadamente a transigir com os dissonantes princípios liberais, estranhos a sua substancia histórica e religiosa. Algo que não posso compreender é como se poderia conciliar a proeza do tradicionalismo carlista com a participação em instituições liberais.
Não posso deixar de recordar um memorável trabalho de Don Rafael Gambra, a quem Deus tenha em sua glória, publicado já há alguns anos em "Razón Española". Nele se perguntava, vendo sua Espanha entregue ao liberalismo maçônico contra o qual havia sangrado na guerra, como era possível que aquele terreno — recordo que dizia: conquistado colina a colina, cota a cota — se entregou tão fácil e silenciosamente ao inimigo derrotado.
Do Vaticano II havia saído o principio contrário a tradição espanhola, a liberdade de consciência. Franco teve que ceder a pressão de Paulo VI e aceitou a liberdade de cultos. Não estava proibido na Espanha professar outros cultos que o católico: estava proibido faze-lo publicamente e difundi-lo. Estava proibido, como manda a lei de Deus, difundir o error. Por essa abertura do pluralismo religioso se infiltrou o inimigo, silenciosa e astutamente.
Don Rafael, com dureza navarra, intitulou seu trabalho "A traição dos clérigos".
Juan María Bordaberry
Montevidéu — Uruguai

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Os não-Nobel da Literatura: Jünger, Borges, Greene

Vintila Horia

Em breve estaremos postando um trabalho de Primo Siena sobre a obra deste grande romêno e novelista genial que foi Vintila Horia.


Permito-me sugerir à Real Academia Sueca estes três nomes: os nomes de Jünger, de Borges e de Greene. Permito­me tirá-los do olvido em que os deixou a ilustre academia no momento em que ela, mais uma vez, outorga o mais importante prêmio literário do Mundo a escritores desprovidos de qualquer importância. Com efeito, quem é o chamado Poliester, ou Pompílio, ou Pomposideo, que acaba de ser coroado como o melhor entre os melhores? Que é que ele escreveu? Dizem os jornais que alguns versinhos de poesia surrealista, da que devia escrever há quarenta ou cinqüenta anos, e que exerce em Atenas o mister de industrial e que tem idéias da esquerda. São estes os únicos dados concretos sobre um homem de cuja obra literária ninguém sabe nada. O simples fato de ser da esquerda (comunista, imagino eu) na vida política e surrealista na vida poética, dá-nos conta da mediocridade da personagem. Se isto é assim, se a imprensa não meteu uma vez mais o pé na argola, mas eu utilizo os únicos dados que tenho sobre essa ilustre personagem a própria circunstância de querer ser ao mesmo tempo surrealista e comunista implica uma contradição absoluta. Porque um poeta surrealista não pode ser comunista, já que vive princípios fora de qualquer tipo de realismo. Colocou-se à margem do real, do real como o consideram os falsos realistas do materialismo dialético. Teria que pôr nos seus livros o realismo socialista, que é a única doutrina consentida a marxistas. Mas ser comunista, ou socialista - quer dizer, ter a marca do marxismo - e ao mesmo tempo ser um surrealista mostra bem a espécie a que pertence o galardoado. Além disso, a que classe de capitalismo industrial poderá pertencer um "homem da esquerda"? Será que, na melhor das hipóteses, ganha muitos dólares para os distribuir pelos pobres, depois de os chamar para junto de si e de lhes ler uma poesia surrealista? Ora a Real Academia da Suécia vive a brincar com a literatura, proclamando vencedores anualmente nestes jogos olímpicos do espírito uns pobres vencidos, e esquecendo alguns escritores de real atualidade, não só por os seus livros se venderem mais do que os de Pompossideo como também por se encontrarem do lado em que se defende o que periga de essencial no ser humano. Não me refiro a novelistas que fazem parte das minhas preferências pessoais, mas sim a homens que estão fundamente ancorados nas preocupações deste século e presentes no drama do homem. Ernst Jünger é o maior prosador europeu vivo. As sua novelas, como "Helio­polis" ou "As Abelhas de Cristal", traduzidas em muitas línguas, contribuíram para formar um tipo de homem voltado para o imperecível, até à defesa desesperada da Eternidade. Nos seus ensaios, tão famosos e tão lidos como as suas novelas – refiro-me a "O Rebelde", "O Trabalhador", "O Muro do Tempo" e a muitos mais - Jünger colocou o problema da técnica como instrumento da planetarização do Ocidente e teve direta influência sobre Heidegger. É um dos espíritos mais cultos, mais inteligentes e mais literários da atualidade, este homem que soube inserir o escritor na imagem integral do homem e do mundo. Os seus "Diários" dão-nos conta das suas preocupações científicas. É através de um homem assim e de uma literatura capaz de o abarcar por completo que temos possibilidade de compreender os nossos terríveis problemas e talvez de os resolver. Todavia, Jünger não interessa aos acadêmicos de Estocolmo. Tê-lo-ão lido? Terão ouvido falar dele? Duvido, porque o fato de terem dado o seu prêmio a um gato surrealista, lido por quatro gatas e de todo em todo ausente da literatura contemporânea, parece-me revelador de uma profunda ignorância. Quanto a Borges, para quê citá-lo aqui? Já toda a gente se inteirou do que propõem os seus contos. É, porventura, o mais hábil contista de todos os tempos - direi mesmo mais hábil do que Bocaccio ou Guy de Maupassant. O seu "Evangelho segundo Marcos" é talvez a obra-prima do gênero, tal como "Aleph". Dizem-no da Direita, como Jünger. Mas que significa hoje ser da Direita? Não está ele mais próximo dos ideais - pelo menos dos ideais aparentes - da Real Academia Sueca do que a carga anti-humana patente nos livros dos materialistas dialéticos amantes da utopia gulaguista? Ou será que em Estocolmo se está mais próximo do ideal leninista-gulaguista do que do ideal humano? Não sei como responder a tal pergunta, que é, de resto, a expressão de uma terrível dúvida. Graham Greene - autor de "O Poder e a Glória", a história antitotalitária mais tremenda deste século rico em tremendismo totalitário e em histórias que o desmascaram, de "O Nosso Agente em Havana" e dezenas de outros livros - conseguiu pôr em relevo a miséria da alma humana em todas as latitudes e a grandeza do homem até no próprio fundo dessa mesma miséria, como naquele padre de "O Poder e a Glória", mulherengo e bêbedo, que no final do livro escolhe o martírio, só porque alguém - talvez ninguém - o esperava do outro lado da fronteira para se confessar. É um livro belo e inesquecível - o inesquecível, nos livros como nas mulheres, representa a marca indelével da qualidade - e uma das coroas de ouro do século XX. Mas Graham Greene é católico... Cada um dos três grandes acima citados têm, portanto, um "defeitozinho" característico e, por isso, nenhum está na linha dos Pomposideos que os afastam, ano após ano, da concessão do Nobel - prêmio esse destinado a galardoar obras cujo fim evidente seja o de nos ajudar a compreender, a viver e a apoiar valores que estão a desfazer-se pelo seu choque com o que é inumano. Em que medida se mantém hoje fiel à missão para que foi instituído um prêmio tão alto e tão cobiçado e que, pelo nome e pela insignificância daqueles que distingue, está a ser reduzido ao contrário do que deveria ser? Que diria Alfredo Nobel face à espécie de literatura que tem sido premiada ultimamente? De resto, trata-se de um prêmio apolítico - mas o que é premiado pelos acadêmicos de Estocolmo são méritos políticos, repelindo escritores muito mais conhecidos, repelindo-os por defeitos políticos, que existem segundo o critério dos acadêmicos mas não segundo o critério dos leitores. Eu já sabia que neste mundo não há justiça, nem sequer justiça literária. Mas a tal ponto, meu Deus, a tal ponto...

Pio X e a questão social

Miguel Fagoaga G. Solana*

O presente artigo é da lavra do saudoso jurista espanhol, MIGUEL FAGOAGA, o qual foi também articulista da Revista Trilingüe Reconquista, que tinha a frente as figuras emblemáticas do brasileiro JOSÉ PEDRO GALVÃO DE SOUSA, do português FERNANDO AGUIAR, e do saudoso jusfiloso espanhol FRANCISO ELIAS TEJADA Y SPINOLA. Não obstante a data em que foi escrito, o artigo em comento não perdeu sua atualidade e indispensável é nos atermos as profícuas palavras de São Pio X, de venerável memória.

A beatificação de Pio X neste ano evoca seus ensinamentos em todas as ordens e, de uma maneira especial, sua luta denodada contra uma série de erros, que em seu tempo começavam a estender-se em proporções alarmantes.
Por isso seus escritos sobre questões sociais possuem especial importância, e assombra observar como os tratadistas, ao expor a doutrina da Igreja nesta matéria, fixam sua atenção sobre Leão XIII e Pio XI e prescindem totalmente do Santo Patriarca de Veneza.
Sua doutrina central é clara e terminante: a causa de todos os males que molestam a sociedade deve buscar-se nas "doutrinas dos pseudofilósofos do século XIII, as da Revolução e do liberalismo tantas vezes condenado» (1).
Adverte com prudência que "a questão social e a ciência social não nasceram ontem; que em todas as idades a Igreja e o Estado em união de esforços felizmente suscitaram para o bem estar da sociedade organizações fecundas" (2). E valentemente sai ao encalço das insidiosas acusações fulminadas contra a Religião Católica ao dizer: "a Igreja, que jamais traiu a felicidade do povo com alianças comprometedoras, não tem que desligar-se do passado". (3).
Ao examinar, todos estes erros recorda como Leão XIII anatematizou
uma "certa democracia cuja perversidade chega ao extremo de atribuir na sociedade a soberania ao povo e procurar a supressão e nivelação de classes". (4).
Para estes reformadores da sociedades, "seu sonho consiste em mudar as bases naturais e tradicionais (da sociedade) e em prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios que se atrevem a declarar mais fecundos, mais benéficos que aqueles em que descansa a atual sociedade cristã" (5).
Segundo eles, "toda desigualdade de condição é injusta ou, ao menos, uma menor justiça, princípio sobremaneira contrário a natureza das coisas, gerador da inveja e da injustiça e subversivo de toda ordem social» (6).
O perigo do socialismo o denuncia em toda sua importância: "refutar eficazmente aos progressos do socialismo; o qual, respirando ódio contra o Cristianismo e arrancando do coração do povo as esperanças do céu, avança destrutor para derrubar o edifício já vacilante da sociedade". (7).
A única solução está na doutrina católica, já que «não se edificará a sociedade se a Igreja não põe os cimentos e dirige os trabalhos".
(8). Porque "se se busca a verdadeira paz é um absurdo pensar que possa existir sem Deus, posto que, onde Deus se aparta, se aparta também a justiça, e faltando esta, em vão pode esperar-se a paz". (9).
E com exatidão e clarividência traça um programa de ação para os católicos no terreno social, político e religioso: "É mister a união dos entendimentos na verdade, a união das vontades na moral, a união dos corações no amor de Deus e de seu Filho Jesus Cristo".(10)
A este respeito não podem olvidar os espanhóis os certeiros conselhos dados ao Cardeal Aguirre, Arcebispo de Toledo: "A ação social dos católicos não reportará as utilidades apetecidas se os que trabalham pelo bem comum não tem, segundo é sua obrigação, um mesmo pensar, um mesmo querer, e um mesmo agir" (11).
É necessário, ademais, nesta empresa de volver a criar uma ordem social cristã, "o concurso dos verdadeiros trabalhadores da restauração social, os organismos quebrados pela revolução - Grêmios, Confrarias, etc. - e adapta-los, com o mesmo espirito cristão de que estiveram animados, ao novo meio criado pela evolução material da sociedade contemporânea, porque os verdadeiros amigos do povo não são nem revolucionários nem renovadores, senão tradicionalistas" (12).
É muito freqüente a afirmação de que a Igreja fracassou ante o problema social, de que a ação dos católicos neste terreno tem sido estéril e que este é o motivo pelo qual as massas de trabalhadores se tem descristianizado e tem seguido doutrinas mais favoráveis em aparência a seus interesses e a seus programas reivindicatórios.
Em primeiro lugar é necessário advertir que todos aqueles sistemas que apresentam uma ordem social distinta da cristã são, ademais de errôneos, utópicos. Hoje o mundo tem experimentado a dolorosa realidade destes regimes socialistas e comunistas que, longe melhorar a condição social dos trabalhadores, hão submetido os povos a escravidão e a barbárie. E nestes erros não há atenuações, todos são igualmente condenáveis: comunismo, socialismo, socialismo de Estado, socialismo democrata, etc.
Que oferecem estes programas? Ao principio escrevemos o esboço traçado por Pio X: "Seu sonho consiste em mudar as bases naturais e tradicionais (da sociedade) e em prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios que se atrevem a declarar mais fecundos, mais benéficos que aquele em que descansa a atual sociedade cristã". (13)
No mundo, por mais que se afanem os mediadores, sempre haverá ricos e pobres, desigualdade, trabalhos, dores, sofrimentos e misérias, etc., etc.
É a condenação bíblica que pesa sobre o gênero humano. Há que volver a repetir com Pio X: "Não há salvação para o mundo fora de Jesus Cristo; como que não há outro nome debaixo do céu dado aos homens, em que devamos ser salvos. Á Ele, pois, é necessário volver; a Seus pés é preciso prostrar-nos; de Seus divinos lábios recebermos as palavras de vida eterna; porque o único que pode indicar o caminho da regeneração é Aquele que disse:«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.»
Se tem tentado novamente prescindir de Cristo na direção das coisas contingentes, passageiras; se tem começado a edificar desfazendo-se da pedra angular, que é que o que São Pedro jogava na cara dos que haviam crucificado a Cristo. Mas o que se edifica sobre areia movediça, por certo cai sobre a cabeça dos edificadores e destroça-se; no entanto, Jesus continua sendo a pedra angular da sociedade humana, comprovando-se uma vez mais que fora Dele não há salvação. "Eu sou a pedra reprovada por vós, os edificadores; e não está em nenhum outro lugar a verdade". (14).
É evidente que o trabalho de muitos católicos no campo social tem sido ineficaz, porém tem eles seguido as regras mais dos revolucionários do que agido como católicos. Eles tem aceitado os princípios errôneos: democracia igualitária, socialismo, totalitarismo, etc., e não ouvem os infalíveis ensinamentos da Igreja. Sigamos a Pio X neste ponto de atuação dos católicos em questões sociais.
Há muitos católicos que defendem idéias liberais e democráticas sem considerar que hão sido anatematizadas pela Igreja "as doutrinas dos pseudofilósofos do século XVIII, as da revolução e do liberalismo tantas vezes condenado"(15). "Outros muitos colocam a autoridade no povo ou quase a suprimem, e têm por ideal realizável o nivelamento de classes. Vão, pois, ao revés da doutrina católica, para um ideal condenado". (16)
São muitos os que "ébrios com o mosto da novidade falam uma linguagem nova e confusa, que não é certamente a que falavam os primeiros cristãos". (17). Disse Pio X dirigindo-se aos espanhóis:
"Desejamos que se cuide também de que não se infiltrem lentamente doutrinas novas e peregrinas, por não dizer opostas ao ensinamento da Igreja. Não raras vezes há ocorrido que a paixão de novidades tenha infeccionado a muitos, ainda entre o clero, dando em terra com sua obra" (18).
Não poucas vezes estes católicos hão procurado antepor os interesses materiais aos espirituais, motivo fundamental do fracasso.
«Enganam-se a si mesmos gravemente os que ao procurar o público bem estar, singularmente ao defender a causa do povo, põe seu principal cuidado nos bens do corpo, ainda que passem em silêncio os da alma e as gravíssimas obrigações da profissão cristã". (19).
Em quantas ocasiões os afãs demagógicos e proselitistas hão esterilizado os melhores esforços.
"mas não basta reunir gente: é preciso educa-la na vida cristã; é preciso forma-la naquele apostolado popular que, juntamente com a ação católica, exige de seus fiéis a Igreja; católicos de fé estéril e infecunda ou, pior ainda, católicos cuja fé contradiga as obras, não poderão nunca ser instrumentos úteis para as grandes empresas da restauração social, a qual, para difundir-se eficazmente, deve começar pelo mesmo que dela se professa apóstolo. Não se contentem, pois, com ir ao povo; esforcem-se sobretudo por formar nele um espírito profundamente cristão". (20)
Basta-nos, para terminar, expor as normas dadas por Pio X para que estes trabalhos no campo social sejam o suficientemente frutíferos que as graves circunstancias do mundo exigem e esperam.
Dirigindo-se aos fiéis da orbe na Encíclica Supremi Apostolatus Cathedra, dizia: "A ação é o que requer os tempos atuais; mais uma ação entregue de toda ao cumprimento íntegro e escrupuloso das leis divinas e dos preceitos da Igreja, a profissão franca e patente da Religião, a prática de toda classe de obras caritativas, sem visar qualquer proveito próprio nem cobiça de vantagens terrenas. Brilhantes exemplos dessas virtudes dadas por tantos soldados de Cristo, serão muito mais eficazes para comover e arrebatar as almas que a abundância de palavras e sutilezas de razões, e se logrará facilmente que, deposto o temor, rechaçadas as prevenções e as dúvidas, se convertam muitissímos a Cristo e promovam aonde queiram seu conhecimento e seu amor". (21).
Anos depois, na Encíclica Il fermo proposito traça o seguinte programa do católico na vida pública e social: "Deve lembrar-se de ser, em qualquer conjuntura, e de aparecer, verdadeiramente católico, aproximando-se dos cargos públicos e desempenhando-os com o firme e constante propósito de promover, quanto lhe seja possível, o bem social e econômico da Pátria, particularmente do povo, conforme as máximas da civilização eminentemente cristã, e de defender ao mesmo tempo os interesses supremos da Igreja, que são os da Religião e da Justiça". (22).
Atuação incompatível com covardias e contemporizações.
«Gravíssimamente erram os que sonham com um estado tal em que a Igreja, sem oposição de ninguém, goze de paz dulcíssima. Mas mais torpemente se enganam os que, levados de vã e falsa esperança de conseguir essa paz, dissimulam os interesses e direitos da Igreja preterindo suas particulares comodidades, os atenuam injustamente, bajulam ao mundo sob pretexto de ganhar aos fautores de novidades e de concilia-los com a Igreja, como se fosse possível acordo algum entre a luz e as trevas, entre Cristo e Belial. Sonhos de enfermos são estes, cujas vãs aparências se forjaram e forjarão sempre enquanto houver covardes que, apenas tendo visto o inimigo, arrojem baixando o escudo, ou traidores que se apressuram em pactuar com o lado contrário, que é em nosso caso o inimigo furioso de Deus e dos homens". (23).
Tratamos de bosquejar em breves linhas o pensamento de Pio X, sobre questões sociais. Hoje que o mundo obsessivamente trata de buscar solução a todos estes problemas por meio de grande quantidade de organismos nacionais e internacionais, bom será que meditemos sobre estas sábias normas de um Pontífice elevado aos altares, e que se morreu por seu amor aos humildes, pois, como esculpiu em seu testamento, "nascido pobre, tendo vivido pobre e certo de morrer muito pobre" (24), ele se considerava um deles.

(1) Enc. Notre charge apostolique, 1, 23 agosto, 1910.
(2) Enc. Notre charge apostolique, 39.
(3) Enc. Notre charge apostolique, 39.
(4) Enc. Notre charge apostolique, 9.
(5) Enc. Notre charge apostolique, 10.
(6) Enc. Notre charge apostolique, 21.
(7) Carta de 20 de janeiro de 1907 aos dirigentes da União Econômico Social.
(8) Enc. Notre charge apostolique, 11.
(9) FERRUCCIO CARLl, PÍO X e Seu tempo, Barcelona, 1943.
(10) Enc. Notre charge apostolique, 22.
(11) Carta do Papa ao Cardeal Aguirre em novembro de 1909.
(12) Enc. Notre charge ttpostolique, 39.
(13) Enc. Notre charge apostolique, 10.
(14) Jocunda sane. (Enc. sobre São Gregório Magno). 12 março, 1904.
(15) Enc. Notre charge apostolique, 1.
(16) Enc. Notre charge apostolique, 9.
(17) Enc. Piene L'animo. 28 julho 1906.
(18) Carta ao Cardeal Aguirre, Arcebispo de Toledo.
(19) Enc. Jocunda sane.
(20) Carta do Cardeal-Secretário de Estado aos diretores da Ação Católica de Umbría.
(21) Enc. Supremi Apostolatus Cathedra, 4 outubro, 1903.
(22) Enc. II fermo Propósito, 11 junho, 1905.
(23) Enc. Communium rerum, 21 de abril, 1909.
(24) Cardeal RAFAEL MERRY DEL VAL, Memórias do Papa Pio X. Madrid, 1946.



*Este artigo foi transcrito da Revista de Política Social, Número 11, de Julho/Setembro de 1951, pgs. 69/75.

Fernando Rodrigues Batista

Quem sou eu

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Católico tradicionalista. Amo a Deus, Uno e Trino, que cria as coisas nomeando-as, ao Deus Verdadeiro de Deus verdadeiro, como definiu Nicéia. Amo o paradígma do amor cristão, expressado na união dos esposos, na fidelidade dos amigos, no cuidado dos filhos, na lealdade aos irmãos de ideais, no esplendor dos arquétipos, e na promessa dos discípulos. Amo a Pátria, bem que não se elege, senão que se herda e se impõe.

"O PODER QUE NÃO É CRISTÃO, É O MAL, É O DEMONIO, É A TEOCRACIA AO CONTRÁRIO" Louis Veuillot